O auto-elogio
Soares Júnioe | Soares Júnior | 27/08/2008 15:00:00
Lembro-me de uma dinâmica de grupo em que avaliava candidatos a um estágio. Éramos uma banca, e é cruel, mas tudo que o candidato faz é avaliado. Existem candidatos de todos os tipos. Tem um que me intriga particularmente, aquele com excesso de autoconfiança. O rapaz fez a "perigosa" redação de apresentação. O texto era irônico, com aquela falsa modéstia que, no fundo, é a constatação da "genialidade" do escriba. Lá no meio do texto - o golpe fatal. Uma provocação e uma espetada na empresa que ele pleiteava ingressar. Apesar de talentoso, sua pretensão tirou sua chance.
Uma chefe falou uma frase que sempre me vem à mente quando a pretensão bate à porta: "fulano é bom, ele não se leva tão a sério". Acho que se levar a sério demais é arrogância.
José Roberto Guimarães é duas vezes campeão olímpico, e uma das primeiras coisas que disse ao término da partida final é que deixara um pedaço de sua alma no fracasso superior. E, no capítulo do não se levar a sério, disse que a medalha dessa vez era amarela, mas amarela de ouro. Em nenhum momento fez aquele discurso fajuto e irritante do "agora os críticos devem se calar", "provamos que éramos os melhores", ou coisas assim.
Vou colocar mão em vespeiro, sei, mas vou criticar o brilhante Bernardinho. Realmente um dos maiores técnicos do voleibol no mundo, comandante da maior seleção da história do esporte, provavelmente. Mas na sua entrevista com o repórter Bruno Laurence, ao fim da derrota para os EUA, ele "se levou a sério" demais.
"Se eu dissesse quando assumi, há oito anos, que ganharíamos seis ligas mundiais, dois campeonatos mundiais, um ouro e uma prata olímpica, o que você acharia?". Bernardinho está certo, ele transformou suor em ouro, mas na minha modesta opinião, alguém deveria dizer isso por ele. Não ele mesmo. Pareceu se justificar. A trajetória dele não precisa disso. O pouco que entendo de vôlei me mostrou que o Brasil perdeu para um time que jogou melhor. Bastava dizer isso. Reitero, esta é minha modesta opinião.
Acho que o brilhante técnico às vezes se perde nas palavras. Quando venceu o mundial em 2006 dedicou o título à mulher. Seria uma bela homenagem se a citada não fosse Fernanda Venturini. Ela e José Roberto não vivem num "mar de rosas". A seleção feminina acabara de amargar mais uma derrota daquelas no mundial da categoria. Teve um certo tom de farpa. Lembro-me que na ocasião Juca Kfouri mandou Bernardinho para o "chuveiro" no CBN Esporte Clube. Neste quadro o jornalista costuma citar as derrapagens de personagens esportivos. A família Bernardinho teve um desempenho pra lá de bom e a frustração pela medalha de prata foi só porque esse time mágico acostumou mal a torcida.
E por falar em auto-elogio, o que dizer do Comitê Olímpico Brasileiro? Receber jornalistas com aquela falácia de melhor participação brasileira em olimpíadas? Dom Carlos I e Único se supera a cada episódio.
P.S.
Voltarei ao assunto clima tenso. Há situações em que sobreviver e entrar no ar são sinônimos e aí, tenso fica o clima, mas como li no comentário do Compan, clima de tensa calma é inacreditável.
| 0 Comentários
|
Topo
Um certo clima por aí
Soares Júnior | Soares Júnior | 25/08/2008 02:00:00
Quem já conversou mais detidamente comigo conhece minha aversão umbilical, fundamental e substancial à expressão "clima tenso". O termo é primo-irmão de "verdadeira praça de guerra", "visivelmente emocionado(a)" e outros clichês que povoam os textos jornalísticos. Eu sei, a expressão explica uma situação, é curta e poderia caber como uma luva no rádio - veículo em que as frases devem dizer muito em poucas palavras.
São adeptos de "clima tenso" aqueles que têm uma idéia errônea do que é rádio. A criação de uma imagem na cabeça das pessoas não é óbvia. Na narração de uma partida de futebol pelo rádio, a bola passa perto do gol de um jeito diferente para mim e para cada um que me dá o privilégio de acessar este blog.
O assunto não é narração esportiva (gente muito mais capacitada do que eu falará sobre o assunto neste espaço). Minha questão é criação de "imagens sonoras".
Marque um encontro com sua namorada. Cineminha básico às 9 da noite. Como você saiu da faculdade ou do trabalho às seis, rolou o chopp com a galera. Nove e quinze - a sessão de cinema com o status de um projeto fracassado - você liga com aquela voz pastosa e alguns decibéis acima do sóbrio. A tentativa de explicar o inexplicável se dará num ?clima tenso?. Se serve para briga de namorado, a expressão não deveria ser usada na reportagem sobre a reação de uma comunidade após a morte de um traficante ou durante uma operação policial.
As imagens são ricas e a função do profissional que trabalha em rádio é retratar aquele momento. Acho que para o rádio-repórter, tão ou mais importante do que a voz é a sensibilidade no olhar.
Repórter de rádio tem que "enxergar" com o ouvido, com o tato, com o paladar e até mesmo com o nariz. O exemplo disso, que pode parecer absurdo, é dizer ao ouvinte o estonteante odor provocado por uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Há poucos dias houve uma demonstração de jornalismo explícito na rádio CBN. O correspondente de F-1 da emissora, Livio Oricchio, estava dentro de um avião no aeroporto de Barajas, em Madrid.
Livio não tinha muitas informações do que acontecia. Ele sabia que houvera um acidente com um avião e que saía uma densa fumaça de um ponto do aeroporto. O repórter estava, havia meia hora, parado dentro avião. Obviamente, o "clima" era "tenso". No entanto, ele não usou descrições exageradas, abusando nos "erres" e "esses". A preocupação era localizar o ouvinte e ser honesto na descrição do que podia ver.
A notícia anda. Às vezes, pelo fato de na mídia impressa ela chegar condensada, pode gerar a impressão de que os fatos ocorreram todos de uma vez. O rádio tem o privilégio de acompanhar de perto a mobilidade do fato.
O jornalista deu também uma prova de que esta profissão deve ser exercida como um sacerdócio. Não deixamos o ofício ao sair da redação. Acidentes aéreos, por exemplo, não têm cartão de ponto.
A fumaça negra era uma das marcas visíveis de um acidente que provocou a morte de 153 pessoas, entre elas o brasileiro Ronaldo Gomes da Silva. Isso, Livio e o mundo souberam depois. Antes porém, o repórter teve a generosidade de dividir os momentos de expectativa que deixavam aquele confinamento angustiante.
Todos nós que ouvimos aquela entrada fomos transportados para o avião em Madrid e esperamos o desfecho da saga. Isso que, na minha modesta opinião, é criar imagens sonoras.
Acompanhe a entrada de Livio Oricchio na rádio CBN.
A matéria que eu fiz mal
Soares Junior | Soares Júnior | 21/08/2008 10:30:00
Acho que para os sentidos o que aconteceu ontem ou há 10 anos tem o mesmo significado. Não sou especialista em neurociência, mas a sabedoria popular ensina que gato escaldado tem medo de água fria.
Não compreendo os mistérios da gastronomia, mas lembro até hoje de um bife com batata frita degustado em um restaurante no Centro do Rio, quando tinha 5 anos. Não deve ter sido a primeira vez que enfrentei este crime calórico, mas foi meu marco inicial, talvez tenha sido o ato fundador de minha briga com a balança.
Tenho uma marca imperceptível na mão esquerda provocada por uma queimadura. Tinha a idade de minha filha mais nova e vi a chama do fogão. Deve ter sido um espetáculo atraente, pois coloquei a mão e fui parar no hospital. A atemporalidade dos sentidos faz com que não saia da minha mente a história a seguir.
Eu estava há menos de um mês na rádio e fui escalado para cobrir uma ação da Guarda Municipal. A Prefeitura mandara desocupar o calçadão de Madureira, utilizado por camelôs.
Os ambulantes entrincheirados se recusavam a sair. Os guardas tentavam cumprir a determinação. Não guardo muitos detalhes da operação, sei que muito cru na profissão, engasguei várias vezes nas entradas ao vivo. Nesta infância profissional, caneta e papel são muletas necessárias, no entanto, em conflitos urbanos não há espaço para escrever. A ordem nestes momentos é ver e reportar.
Em meio aos conflitos, uma cena estarrecedora. Uma das ambulantes ateou fogo às próprias vestes. A imagem é um clichê para descrever loucos na literatura, mas ali naquele calorento abril no subúrbio carioca não era uma metáfora.
Todos os olhos se voltaram para a mulher. Ela gritava e se debatia no chão. Os jornalistas meio que no instinto e ainda atônitos registravam o espetáculo de horror.
Como no despertar de um transe, alguém gritou: "vamos apagar". O fogo foi debelado, mas o estado de saúde dela era bem grave.
Pouco mais de um mês depois ela morreu. Mórbido, porém inesquecível foi o cheiro de carne humana queimada. Durante muito tempo tentei exorcizar aquele odor e os gritos lancinantes da mulher.
Carrego algumas culpas daquele episódio. A primeira, não ter ajudado a mulher imediatamente. Fiquei estático. A segunda, não ter entrado no ar no ato, a diferença do rádio é justamente poder reportar o fato no momento em que acontece. Minha inexperiência fez com que meu trabalho não fosse bem feito.
Ah, se eu tivesse uma segunda chance...
Acho que neste caso não adiantaria, com certeza teria entrado no ar, mas não sei se teria conseguido ajudar a mulher. Teria conseguido evitar a morte dela? Não tenho resposta e não vou brincar de Deus.
***
PS: Para que fique claro em referência ao último texto. Tenho fé e por isso espero que seja providenciado o reparo na imagem de São Judas Tadeu que fica na estrada do Corcovado. Quem sabe as coisas não se ajeitam ali no quarteirão das ruas Gilberto Cardoso e Mário Ribeiro, num certo clube que anda mancando no páreo do brasileirão.
| 7 Comentários
|
Topo
Vereador
Soares Júnior | Soares Júnior | 15/08/2008 01:00:00
Este blog vai mudar de característica neste texto. Resolvi contar uma história que se desenvolve e não uma que já passou. Fui apurar como está a memória da campanha de milícias. Manuel Antonio de Almeida que me abençoe.
O candidato deve ser lembrado. Sua imagem e seu número devem estar na memória do eleitor no dia da votação. Uma das formas são aqueles "pirulitos" com o retrato do postulante. Vamos a algumas cifras. Aquelas pessoas que ficam paradas tomando conta ganham uma diária de 30 reais, em média. Claro, fazer tudo na conformidade da lei tem um preço caro. Pagando o INSS e as refeições este recurso de propaganda sai por R$ 1000,00 por mês.
Pelas informações que vou fornecer, todos notarão o porquê de fazer total questão de preservar o sigilo da fonte. Há campanhas para todos os gostos. Uma que tive conhecimento está com previsão de R$ 100 mil a R$120 mil. È uma das mais modestas. Meu ou minha informante - vou brincar de esconde-esconde - calcula que há campanhas que vão custar até R$ 2 milhões. Esperemos pelas prestações de contas na Justiça Eleitoral. A questão que sempre se coloca é: de onde vem este dinheiro e como quem deu vai receber de volta.
Uma janela bem situada em vias expressas como Linha Vermelha ou Avenida Brasil pode valer ao feliz proprietário uma diária de R$ 200 reais. Claro que esta cobrança é ilegal, mas mesmo assim, existe.
Uma candidatura é um investimento, mas pode ser arriscada. Até agora falamos de despesas, mas vamos aos riscos. O personagem desta reportagem passou por situações inusitadas e outras que denunciam a tragédia da nossa guerra urbana.
A engraçada, um dos pirulitos do candidato(a) caiu e ele foi "atropelado(a)". Outro foi abatido a tiros. "Já fui atropelado(a) e atingido(a) por tiros nesta campanha - brinca com a situação - só escapou o meu rosto".
Uma das pessoas envolvidas na sua campanha sofreu uma intimidação na Zona Oeste. Um homem saltou de uma caminhonete e avisou "quem mandou colocar este cartaz aqui? É melhor tirar. "
A personalidade política avalia que está mais difícil fazer campanha nesta eleição do que em outras. "Há uma comunidade de uma região da cidade em que eu sempre tive entre 1000 e 1600 votos. Só que desta vez pessoas amigas minhas avisaram para não trazer cartaz, santinho nem nada porque o lugar já tem dono".
Em uma favela da Zona Oeste, ele conta que os simpatizantes de sua candidatura estão distribuindo folhetos e fazendo campanha escondido, para não sofrerem represálias.
Tal qual alguns cientistas políticos, o(a) candidato(a) avalia que o voto de opinião está acabando. "Quando você faz campanha na rua, as pessoas perguntam: quanto vale esse voto? O que vou ganhar em troca?" Para ele, se o voto fosse facultativo, só seriam eleitos milicianos e candidatos apoiados pelo tráfico.
Praga antiga, os centros sociais espalhados preenchem o vácuo do estado e com o carcinoma do assistencialismo.
Diante dos riscos externos, alguns usam estratégias interessantes, como colocar pessoas de bicicleta andando pelas ruas ou realizando comícios domiciliares e churrascos para grupos de 50 a 100 pessoas.
Apesar de não ser católico, penso em São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. No entanto, me lembro que em recente visita ao Corcovado vi que a imagem dele às margens da estrada de ferro está com a cabeça decepada. Nem ele vai poder valer por nós nestas circunstâncias.
Para conferir a prestação de contas parciais dos candidato, acesse: http://www4.tse.gov.br/spce2008Divulga/
| 4 Comentários
|
Topo
Hábitos de um bom amigo
Soares Júnior | Soares Júnior | 12/08/2008 01:00:00
Apoio minha trajetória profissional no rádio num tripé. Rádio é hábito, prestação de serviço e não tem imagem. Os erros que a gente comete são quase sempre por esquecer algum destes preceitos.
A Rádio Globo tem um programa que é a prova de que habituar o ouvinte é uma receita que costuma dar certo. O Show do Antonio Carlos é assim. Não há surpresas. Se você ligar às 6h55 haverá um comentário sobre a novela. Por volta das 8h45 terá a simpatia da pudica e às 8h55 começa uma entrevista. É assim todo dia. Antonio Carlos entrega o que promete e desta forma, o ouvinte confia nele. Antonio Carlos é líder de audiência no Rádio AM há mais de uma década.
Esquecer que o rádio não tem imagem é mais fácil do que se pensa. Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial, só quem já viveu sabe a dor e a delícia de passar por ele trabalhando. Antes da minha primeira cobertura não tinha assistido a um espetáculo inteiro. E lá fui eu, para o setor de dispersão.
Armado com um microfone e aproximadamente 15 metros de cabo, movimentava-me pela Praça da Apoteose derrubando outros jornalistas, impedindo o caminhar de algum destaque e coisas assim. Um dos momentos tensos da noite foi quando Suzana Alves, a Tiazinha, chegou à dispersão. Ela era a grande sensação do carnaval (?!). Foi um alvoroço e involuntariamente fiz meus colegas de profissão brincarem de pular corda e como ali não era o lugar propício, derrubei alguns e enfrentei olhares hostis.
A atriz Thais Araújo havia desfilado e eu comecei a falar com ela. Disse: converso neste instante com a atriz Thaís Araújo que está irreconhecível...? e emendei alguma pergunta do tipo e a emoção de desfilar na Marquês de Sapucaí. É, os críticos diriam que eu deveria perguntar a importância do negro na cultura brasileira, ou a contribuição do samba para o país resolver a questão do comércio mundial, mas às duas da manhã na Sapucaí, façam-me o favor.
Você deve estar se perguntando, por qual motivo a Thais Araújo estava irreconhecível. Pois é, eu não informei ao distinto público que me ouvia naquele momento. Tal qual quem lê este texto, o ouvinte não sabia que ela estava vestida com uma roupa de época, com uma maquiagem branca, peruca branca, representando Xica da Silva, personagem que a celebrizara na TV. Foi necessário que o âncora da transmissão, Marcos Gomes, me perguntasse a razão pela qual ela estava irreconhecível. Esqueci que rádio não tinha imagem.
Pouco tempo depois a Thaís foi ser minha aluna. Eu olhei para ela e imperdoavelmente não a reconheci. Olhei e achei o rosto familiar, mas não fiz sinapse. Na hora da chamada o nome dela não estava na lista e fiz a indefectível pergunta se alguém não havia sido chamado. Ela levantou o dedo e eu perguntei o nome. Ela disse "Thaís" e eu "Ah, tá". Gentil, ela perdoou a falha do repórter.
E para encerrar uma história para contar o poder de uma boa prestação de serviço. Desenrolava-se a primeira Guerra do Golfo. Um navio da Marinha Mercante brasileira estava na região. A equipe de jornalismo da Rádio Globo conseguiu entrar em contato com a embarcação. Ao atender, o comandante agradeceu o empenho dos repórteres e mandou um recado para os parentes e amigos. Eles não estavam próximos dos bombardeios. No fim da narrativa, o mais inusitado. Eles souberam da preocupação de todos ouvindo a Rádio Globo no meio do Golfo Pérsico. Esqueci mais uma coisa do rádio. Ele é um amigo para todas as horas.
| 5 Comentários
|
Topo
Os velhos
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/08/2008 15:17:16
Sou filho temporão. Tive o privilégio ao longo da vida de conviver com pessoas idosas. O ruim nesta história é que a maioria deles vive só na memória atualmente. A vida profissional colocou-me a entrevistar alguns anciãos.
Três desportistas em especial deram-me munição para a guerra cotidiana, dividindo comigo histórias. O primeiro foi Adhemar Ferreira da Silva. Único atleta brasileiro a ganhar duas medalhas de ouro olímpicas no atletismo. Avisaram-me que ele era arredio com quem não entendia do assunto. O despreparo dos entrevistadores, infelizmente, não é tão raro assim na nossa profissão.
No estádio Célio de Barros era disputada uma competição internacional de atletismo. Por algum motivo que ignoro, meu cérebro guardou que a medalha de ouro nos jogos de Melbourne, em 1956, tinha sido conquistada com um salto de 16m36cm. Perguntei a ele como ele se sentia pelo fato de mesmo 40 anos depois, o salto dele ainda alcançar o pódio numa competição de alto nível.
Ele abriu um enorme sorriso e me concedeu uma longa entrevista. Vocês querem ver a importância do cara. Sozinho ele ganhou duas medalhas de ouro, em Atenas-2004 a delegação inteira ganhou cinco.
O segundo cavalheiro chamava-se Valdir, tornou-se nobre com o apelido, Didi. Cruzei com ele algumas vezes nos corredores da Rádio Globo onde participava costumeiramente das resenhas esportivas.
Ao fazer um especial sobre os 50 anos do Maracanã peguei carona com um colega que marcara uma entrevista com o Folha Seca. Autor do primeiro gol do maraca, Didi continuava com a lucidez intacta, mas o corpo lhe pregara peças. O fotógrafo quis que ele posasse chutando a bola. No entanto, o Príncipe Etíope (alcunha dada por Nelson Rodrigues) tinha a marcação de uma bengala. O jeito foi colocar a bola presa entre a cabeça de Didi e a trave. Escrava em tantos momentos, a pelota ficou ali obedientemente, esperando a chapa ser batida.
O terceiro personagem era um senhor de pele morena e cabelo ralo que me parecia familiar. Meu irmão, que é 18 anos mais velho do que eu, estava que era só empolgação. Este é o Mestre Ziza, o Zizinho ídolo do Pelé.
Achei o máximo e comecei a perguntar. Estávamos em Niterói, ele armado da memória e de scotch. Eu de curiosidade e cerveja. Assim como meu pai, que me contava histórias do Governo Vargas, Zizinho relatava suas façanhas em campo. Esta parte do texto vai ficar bem de menino. Os homens entendem como é bom contar seus feitos no futebol. E aquele cidadão que me dava o privilégio da companhia, era o ídolo do Pelé.
E ele percebia que eu estava empolgado com a saga e me continuava a narrativa. Zizinho falou de uma vez que, com a perna quebrada, conseguiu virar um jogo que estava perdido. Confessou que corria tanto nas partidas, que chegava a perder dois quilos por jogo. Ainda não estava na faculdade, mas uma curiosidade congênita me levou à pergunta sobre a Copa de 50. Com um traço de amargura, ele falou que jogo é assim e o time do Uruguai era bom. Mestre Ziza contou que se irritou com os políticos que queriam tirar proveito dos jogadores antes da finalíssima. Rubro-negro, Zizinho talvez reprovasse o clima no Flamengo antes da partida contra o América do México. Naquela conversa nos anos 90 ele já se incomodava com os rumos do clube.
Passei uma madrugada bebendo com o ídolo do Pelé. Ao final, ele se levantou e foi tranqüilamente, ecos do gingado de outrora ainda se manifestavam no andar. Eu, peladeiro com alguma eficiência, levantei-me trôpego, mesmo tendo menos um terço da idade do mito.
Anos depois, já trabalhando encontrei-o numa pauta. Ele não demonstrou se lembrar de mim, mas o bem já estava feito, a seleção de 50 absolvida e eu com mais um ídolo.
Os três gênios foram extremamente generosos ao dividir as histórias comigo. Estes relatos são lições que tento levar. Espero que a generosidade não seja apenas coisa de velho e nem que velhice seja sinônimo de solidão.
| 5 Comentários
|
Topo
Imperfeitos, mas deuses
Soares Júnior | Soares Júnior | 04/08/2008 15:30:00
Hoje vou me aventurar numa seara que normalmente não é a minha. Certa feita fui convidado para integrar uma equipe de esportes, mas vi que não daria certo quando ao fazer um jogo, lamentei no ar a expulsão do jogador do meu time. Preferi participar da resenha de todas as segundas na redação. Sou completamente apaixonado pelo tema, mudo de humor na derrota do meu time, e demoro a dormir quando meu time joga às quartas-feiras.
Dentro deste espírito, foi muito bom ver integralmente a final da Copa de 58. O mito construído é que a Suécia fez 1 a 0 por acidente e que depois foi um massacre.. Não foi bem assim, os suecos abriram o marcador e poderiam ter ampliado.
Ávido, queria ver, nesta ordem, Garrincha, Didi e Pelé. No fim do jogo emergiu um sentimento de alívio e orgulho de Vavá integrar o "esquadrão de ouro". Jogador moderno, se movimentava, encarava os suecos e fez os dois gols que colocaram o trem nos trilhos.
Garrincha não ganhou todas as jogadas do adversário. Não cabia no mito que o João nem sempre era João. Garrincha não era perfeito em campo e poderia ter dado alguns passes em vez de ser individualista. Quando assisti a partida, ele ganhou dimensão humana e acabou o processo de conquista que havia começado na leitura do indispensável "Estrela Solitária", de Ruy Castro.
Como sou da época do futebol de resultados, vamos aos fatos. Ele passou como quis pelos adversários em pelo menos três oportunidades. Em duas delas Vavá completou o cruzamento e colocou o expresso nos trilhos. Por muito menos o Flamengo lamenta a saída do Marcinho.
Didi não fez nada de especial no jogo. Estranhamente, ele não errou passes. A bola saía dele e parava num lugar que não estava ninguém. Um segundo depois aparecia um pé brasileiro. Ele sabia que o companheiro ia estar naquele lugar antes do cérebro do outro fazer a sinapse. Imponente buscou a bola depois do primeiro gol e mostrou aos suecos que eles poderiam vencer, mas lutariam com um time de muita oportunidade. Sinceramente, tive a impressão que Didi escravizava o ritmo do jogo, quase que indolentemente.
Pelé era um moleque franzino, que perdeu muitos lances na disputa com os fortes zagueiros suecos. Chegou a dar um chute que saiu pela lateral. Pedra bruta que mostrou no que daria a lapidação no momento do terceiro gol. Ele deu um lençol no adversário e fugiu du a falta. A fuga foi intuitiva ou racional. Aposto no raciocínio, ele sabia o que o adversário faria, evitou a pancada e assinou a pintura.
Eles não eram perfeitos, erravam passes, faziam faltas e tinham adversários. Ao vê-los, em ação durante 90 minutos os coloquei no meu Olimpo particular. Obrigado tecnologia, finalmente vi Garrincha driblar, Didi desfilar e Pelé ser genial. O tempo era outro e o esporte mais lento. No entanto o que eles faziam era sublime. Agora sei disso não preciso mais de críticos saudosistas. Artur Xexéo escreveu algo como alguns filmes brasileiros que consagramos não passariam incólumes por uma sessão no Canal Brasil. Temi que acontecesse isso com a final de 58. Felizmente, o temor não se confirmou.
Agora só falta conseguir ver um jogo do Zizinho, aí vou me dar por satisfeito. Aliás, Zizinho será o tema da próxima coluna.
Até a próxima.
Ouça trechos da narração no endereço:
http://www.radionacional.am.br/copa58/?page_id=52
| 3 Comentários
|
Topo
Enternecer apesar das facas
Soares Júnior | Soares Júnior | 31/07/2008 15:00:00
Ouvi uma frase tão lírica que tive vontade de dividir com aqueles que me dão o privilégio da leitura. A sentença é a seguinte "isso é tão velho que é do tempo que meu avô era em preto-e-branco". Aproveitei e pensei no que era preto-e-branco na minha vida.
Na minha galeria vieram a bola branca e gomos pretos com os nomes dos tricampeões do mundo, a meia branca e o kichute preto do uniforme da escola. Além disso, tinha a Paula Saldanha, no Globinho, o Vila Sésamo, com Armando Bogus e Sônia Braga, e a novela Estúpido Cupido. Ah, essa ficava colorida fase final, mas a TV lá de casa era preto-e-branco, então não adiantou nada. Achei essa frase cheia de ternura e pena que a gente esteja cada vez mais em dívida com esse sentimento.
Ao chegar à redação naquele dia encontrei o repórter da madrugada desolado. Bandidos haviam assaltado uma mulher e duas crianças. Os homens levaram o carro e a mãe não teve tempo de soltar o filho mais novo. Os monstros arrastaram a criança.
Terrível, segundo as palavras do repórter a cena era inacreditável. A história iria crescer e junto da indignação veio o cuidado para que a firmeza jornalística não desse lugar a sensacionalismo. Deveríamos relatar o que vimos, no entanto a descrição com detalhes sórdidos seria evitada.
João Hélio não teve tempo de fazer uma retrospectiva do que era preto-e-branco na sua vida. Não teve tempo de aprender o que era retrospctiva, tinha 6 anos. E o que falar de João Roberto, morto numa barbárie com apenas 3 anos. Monstruosidade cometida por quem deveria proteger. É a tal da falta de ternura? Não, é pior, é a falta de esperança no ser humano.
E por vezes no mais profundo da dor, um personagem fala algo simples, este foi o caso do pai de João Roberto. A frase foi na justa medida do que a gente pensa: "polícia não é para matar".
A simplicidade deste sentença me lembra a frase do começo, "do tempo que meu avô era preto-e-branco". O autor da frase é o meu filho, que não é João, mas tem nome de santo também. O rapaz ainda não teve tempo de se contaminar pela "desternura" (ok, inventei essa palavra, mas um ministro inventou imexível).
Como canta Mônica Salmaso "história de criança tem que ter final feliz".
Acompanhe a entrevista com a repórter Silvana Maciel que acompanhou as tragédias dos dois meninos chamados João.
Personagens importantes
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/07/2008 14:00:00
Parte da família nordestina trouxe para mim hábitos que podem soar estranhos aos que têm uma visão única das coisas. Cresci tentando entender porque minha mãe guardava um retrato com o enterro do primeiro marido dela.
A fotografia era solenemente mórbida. O caixão branco no meio e todos os presentes ao velório rodeando o homem morto. A imagem é uma daquelas que não desabitam a memória. Não vejo a foto há mais de 25 anos, mesmo assim continua na retina.
Minha mãe ensinou-me a gostar de arroz, feijão e farinha amassados com a mão. O segredo é misturar fazer o bolinho e conduzir com a mão até a boca. Peixe com leite de coco. Ela tinha orgulho de guardar a foto e de ter conseguido criar sete filhos sozinha depois da morte do primeiro marido.
Os personagens são essenciais numa reportagem. Nas de economia nem se fala. As histórias das pessoas são a melhor forma de traduzir a numeralha. Ao fazer uma série de reportagens com dados da Pesquisa de Orçamentos familiares do IBGE reencontrei um desses batalhadores. O trabalho é o seguinte, você recebe um calhamaço com cerca de 300 páginas recheadas com gráficos e estatísticas. A função do repórter é transformar aqueles números em vida.
Um dos aspectos relevantes do levantamento era que no Nordeste aumentava o número de idosos responsáveis pela família. O motivo era simples, os que conseguiam a aposentadoria rural, eram a garantia de um rendimento certo numa terra de incertezas secas e áridas.
Em busca de personagens esbarrei em um agricultor de uma cidade a 400 quilômetros de Recife. Ele ganhava em 2004 um salário de R$ 240 por mês. Desabei quando o homem explicou que aquela era renda com a qual uma família com 16 pessoas contava. Neste momento "meu programa entrou em looping". O homem dizia que o resto do sustento saía da venda esporádica de galinhas e hortaliças. Chorei e por sorte a minha amiga Carolina Morand dividia a reportagem comigo. Ela tomou o telefone das minhas mãos e terminou a entrevista.
Minha mãe teve uma história semelhante e isso mexeu comigo. Imagino que seu José tenha algum retrato do enterro de um ente querido.
A luta contra um agreste inóspito faria de dona Alzira seria um belo personagem sobre retirantes que tentam a vida melhor no "Sul Maravilha". Aguinaldo Silva em "Senhora do Destino" e Chico Buarque em "Brejo da Cruz" já foram brilhantes ao descrever estes seres que às vezes "comiam luz". Foram menos áridos do que Graciliano Ramos em "Vidas Secas" e por isso menos viscerais, mas isso é literatura e o papo aqui é jornalismo.
Jornalisticamente, o personagem é vital para o transporte do ouvinte/leitor/ telespectador para o interior de uma história. Relato que é dele, personagem, mas pode caber na vida de qualquer um.
O Suserano
Soares Júnior | Soares Júnior | 22/07/2008 15:00:00
Há entrevistados irritadiços. São aqueles que olham para você com ar superior. Alguns técnicos de futebol usam esta tática o tempo todo. Uns ganham títulos importantes, outros perdem estes títulos, mas nas entrevistas são absolutos.
Entrevistados enfezados existem em todos os campos, eles gostam de entrevistadores adesistas. Vamos falar de um deles. A noite era carnavalesca. Eu ia para a vigésima entrevista da noite em um dos camarotes da Marquês de Sapucaí. Inglória missão, conseguir matéria entre scotch, caipirinha, vinho e cerveja. O Rio tentava trazer alguma olimpíada e acabara de sofrer com mais algum episódio violento.
Depois do começo inseguro normal da profissão, deixei de me importar em fazer perguntas incômodas ou não aos entrevistados. Perguntei educadamente: ?O senhor acha que a questão da segurança pode ser empecilho para a candidatura da cidade??
A resposta foi ríspida e curta: "E Nova York"? Ponderei que os EUA já haviam sediado os jogos em algumas oportunidades. A quarta resposta lacônica "E Nova York" foi acompanhada por um grito e alguns passos para frente.
Se não fosse a mulher dele seria a primeira vez que eu seria agredido fisicamente por um entrevistado, algo como Jorge Kajuru sendo golpeado ao vivo na TV Bandeirantes. Com a voz uma oitava acima respondi que ele precisava ser mais educado.
O personagem em questão não gosta de perguntas diferentes daquela que no jargão chamamos de "bola levantada". O olhar fica torto e a voz sai como tiros de metralhadora.
O Comitê Olímpico Internacional é bem mais inconveniente do que um repórter numa noite folia. O contraditório faz parte da prática democrática. Ah, esqueci que não há muita democracia na cabeça deste entrevistado.
O COI tem um extenso e rigoroso caderno de encargos e nessa tentativa de sediar os jogos de 2016 temos adversários Tokyo, Chicago, Madrid. Não são freqüentes as notícias de blitzes policiais trágicas e corrupção tão explícita nestes locais.
Dia desses ouvi de um entrevisto dizendo ao repórter que gostava das perguntas dele porque eram "pra cima". Acho que poucas coisas podem ser mais negativas do que essa para um jornalista.
O mórbido necessário
Soares Júnior | Soares Júnior | 17/07/2008 17:00:00
Há um mórbido trabalho nas redações que deve ser feito com muita discrição. Quando um personagem importante do cotidiano sofre algum problema grave de saúde ou vai envelhecendo é organizado um funéreo sobre aquela pessoa.
O funéreo é um dossiê com todas as realizações da personalidade. O procedimento é o seguinte, vai-se ao centro de documentação do veículo em que você trabalha e cata-se tudo que é relacionado ao personagem. Vale sonora, feitos, composições, com o que houver disponível monta-se o perfil.
Claro, nem sempre dá certo, afinal, apesar da pretensão, não acertamos normalmente a lista de passageiros que entram neste trem. João Paulo II e Yasser Arafat tiveram martírios públicos e prolongados, o que deu tempo para montar os funéreos sem sobressaltos.
Tem casos em que as pessoas sobem no telhado, mas agarram-se na cumeeira, nas telhas e no beiral e demoram a cair. No imperdível ?Anjo Pornográfico?, Ruy Castro conta que Nelson Rodrigues deixou os jornalistas em alerta por um bom tempo antes de morrer. Há também os que têm seus funéreos atualizados regularmente por causa da longevidade. Tem gente que tinha graxa neste telhado e não desceu de jeito nenhum. Uma amiga confessou certa vez a sensação estranha: "quase deixo escapar que fiz o funéreo dele".
Mortes abruptas pegam as redações despreparadas, obviamente. No entanto, a internet salva estas situações. Aliás, o que seria de nós sem os sites de busca. Mas há armadilhas.
Assisti ao funéreo do ator e ex-jogador Breno Mello. Ele fez o papel de Orfeu, no filme "Orfeu Negro", de Marcel Camus. Num determinado momento, o texto refere-se ao filme como se as canções fossem Bossa Nova. Apesar das músicas serem de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, nem o poeta, tampouco o maestro tinham conhecimento da batida que João Gilberto preparava e apresentaria ao mundo no histórico LP de Elizeth Cardoso, considerado Marco Zero do movimento.
Voltando aos funéreos, dentre os que preparei, um foi triste e curioso e pedagógico. Conhecido poeta e ator estava mal de saúde. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, tinha carinho por sua figura distinta e militante. Segui o ritual, fiz a coleta do material e preparei o perfil. Seis meses depois vejo na televisão que o "perfilado" morrera. O curioso da história é que ele partiu no dia do meu aniversário. Seguiram-se as costumeiras gozações da minha falta de sorte. Tudo bem, aceito este meu "azar" com algumas ressalvas.
Lembro-me do personagem em todos os meus aniversários, o pedagógico é que reaprendo que existir é assim mesmo, uns chegam e outros partem.
Até a próxima.
O jacaré e o celular
Soares Junior | Soares Júnior | 11/07/2008 13:30:00
Perguntaram a Umberto Eco qual a grande invenção do Século 20. O escritor italiano respondeu que era a penicilina. A explicação se baseava no fato de que o pai e o avô dele viveram até 40 anos e ele já está próximo dos 80.
O mesmo questionamento lançado ao repórter de rádio traria outra resposta, provavelmente. Ela atende pelo nome de telefone celular. Santa invenção tecnológica! Imagine a revolução. Repórteres antigos (maldade pura esta alcunha) como Sidney Rezende, Luciano Garrido, Ricardo Ferreira e Ermelinda Rita recebiam um saco de fichas e iam para a rua enfrentar a labuta do dia-a-dia. Junto com a ficha vinha compulsoriamente o barulho dela caindo no meio do flash. Hoje em dia o celular deve ser tratado como a extensão da mão do repórter.
Se o transistor permitiu que o rádio saísse da parede e ajudou na refundação do veículo após a chegada da TV, o celular libertou os repórteres dos fios. Antes era possível fazer matérias com postos volantes, mas os movimentos eram limitados. O celular permite a transmissão de lugares remotos.
Havia o "jacaré", um fio que era colocado no fone ajudava o repórter a transmitir a sonora. Muitas vezes os profissionais de rádio eram confundidos com vândalos. Muita gente fazia o flash, entrava no ar e a fila no telefone público aumentava. Nos anos 80 um repórter da mítica rádio JB chegou a ser detido após desatarrachar o bocal de um aparelho para fazer a transmissão.
No podcast desta coluna você acompanha o próprio Ricardo Ferreira contando como foi a cobertura do seqüestro do ônibus 174.
Fidel, joelhos e canos de pvc
Soares Júnior | Soares Júnior | 07/07/2008 12:30:00
O som é a imagem do rádio. Um gravador poderia registrar a voz do príncipe regente às margens do Ipiranga e o brado retumbante. Na falta da sonora resta-nos os livros de história. As gravações servem para transportar o ouvinte para o teatro dos acontecimentos. É o que alguns autores chamam de "cenário sonoro". Tanto é que, quando chegamos à redação aprendemos que a sonora é a ilustração da matéria.
Devemos fazer de tudo para captar o áudio. Durante uma reunião de cúpula de chefes de estado num hotel em Copacabana, fiquei três horas ajoelhado aos pés de Fidel Castro. Não, não foi um culto ao comandante-mor da Revolução Cubana, apenas malabarismo de um repórter iniciante.
O pior foi constatar que por interferência de outros equipamentos eletrônicos a maior parte da gravação d´el comandante ficou fora da rotação. Aproveitei pouco do áudio e me senti um integrante das tropas de Fulgencio Batista em Sierra Maesrtra.
Desde então tomei todos os cuidados para preservar minhas sonoras. O escândalo do propinoduto estourou no começo do governo Rosinha. Para quem não se lembra, foi um esquema de propinas montado por alguns funcionários na secretaria estadual de Fazenda. A Alerj resolveu instalar uma comissão parlamentar de inquérito.
No dia do primeiro depoimento, o primeiro grande desafio. As caixas de som da sala 316 do Palácio Tiradentes eram perto do teto. Os repórteres de TV resolveram pendurando seus microfones na caixa para captar as falas dos interrogados. Eu fiz a mesma coisa com meu gravador. No entanto, as trocas de fita eram trabalhosas. Terminei meu turno de trabalho e voltei para redação pensando em como resolver o problema no dia seguinte.
Lembrei dos meus tempos de técnico em Construção Civil e amanheci no setor de manutenção do Sistema Globo de Rádio. Pedi a um dos rapazes que arrumasse uma prancha de madeira e colocasse na ponta de dois canos de pvc.
Parafernália pronta, o primeiro problema. Meu novo "companheiro" não cabia no carro. Resultado, amarramos um pano na ponta e fomos com traquitana para fora do carro rumo à Alerj.
Quando cheguei com meu novo "amigo", medindo pouco mais de dois metros, fui barrado. Tive que convencer os seguranças que não faria uma manifestação contra os nobres deputados. Com a intervenção da assessoria de imprensa, consegui me dirigir à sessão da CPI do Propinoduto. Ao entrar na sala, a apoteose. Interrompi o depoimento. Os deputados, o depoente e os jornalistas olharam para mim e meu "amiguinho". Pedi perdão pelo inconveniente. Instalei meu gravador e consegui minha sonora. Negociamos com a Alerj para que "rapaz" ficasse guardado lá. Minhas amigas Carolina Morand e Simone Lamim agradeceram e aproveitaram minha tosca invenção.
É necessário improvisação em vários momentos da nossa profissão, não só no momento de entrar no ar. Ah, como o ambiente das redações é saudável e extremamente sarcástico, o equipamento ficou conhecido como "pau do Creso".
| 8 Comentários
|
Topo
Boas histórias devem ser contadas
Soares Júnior | Soares Júnior | 02/07/2008 13:51:37
Às vezes preocupo-me com alguns comentários que ouço.' São aqueles do tipo: "este programa deveria ser proibido" ou a imprensa não deveria saber tantos detalhes das investigações". Feridos no que acreditam ser a moral e os bons costumes, alguns bradam essas barbaridades.
Nunca é demais lembrar que regimes de exceção adoram amordaçar a imprensa livre e aniquilar veículos que sejam contra os seus cânones. A liberdade de imprensa e o estado de direito são prerrogativas de um país que se julga democrático. Não é errado que o jornalista tenha acesso à informação. Ele e o veículo para que trabalha devem ter responsabilidade no momento de divulgar o conteúdo. Por exemplo, são totalmente dispensáveis detalhes mórbidos de como ficaram braços e pernas das vítimas da queda de um avião, ou como ficou o rosto de uma pessoa atingida na cabeça por uma bala perdida.
Há formas de contar boas histórias sem comprometer os envolvidos. A que se segue é uma destas. Além disso, serve para mostrar como em muitas oportunidades a justiça tem que se ocupar de casos peculiares que aumentam consideravelmente o volume de processos sob responsabilidade dos juízes. E por falar em responsabilidade, os nomes reais não serão divulgados, para evitar qualquer constrangimento.
Jovildo tinha 60 anos e morava numa cidade no interior do estado do Rio. Ele possuía duas casas. Uma delas estava vazia. Nilcéia ficara viúva, tinha pouco menos de 40 anos e oito filhos. Sem condições de criar as crianças, ela pediu para ocupar a casa vazia. O homem aceitou a oferta da viúva. Com o tempo Nilcéia resolveu compensar Jovildo com favores sexuais. As coisas caminharam bem até que Jovildo morreu.
O homem não tinha herdeiros e casa ficou para o irmão dele. A família estava sem sorte, pois o irmão faleceu pouco depois. O imóvel foi parar nas mãos da cunhada de Jovildo. Pouco importava que ela se dava bem com Jovildo, ela tinha direito ao imóvel ocupado por Nilcéia. Como resolver o entrevero familiar? Justiça.
A cunhada entra com uma ação de despejo alegando que Nilcéia estava devendo o aluguel. No entanto não havia contrato de locação. Nilcéia e Jovildo tinham um acordo verbal. Começa a audiência e a cunhada está exaltada, falando alto. Ela chegou a interromper o depoimento de Nilcéia.
A juíza se irritou e repreendeu duramente a cunhada. Nesse momento ela desmai8a. Confusão no plenário, acode a cunhada, chama a ambulância...Quando chegam os médicos a cunhada acorda e relutaem ir ao hospital. A juíza endurece o jogo. A cunhada se desesperou e saiu correndo da sala de audiência. Charivari formado.
Depois de algum tempo a cunhada volta com uma testemunha de que Nilcéia tinha um acordo de locação com Jovildo. A tese era de que Nilcéia pagava o aluguel com favores sexuais.
A defesa de Nilcéia se aproveitou disso e afirmou que não tinha havido quebra de contrato de locação. Pois com a morte de Jovildo, Nilcéia não poderia mais efetuar o pagamento. Se esse argumento foi relevante ou não, o fato é que Nilcéia continua na casa.
Na minha modesta opinião, direito em muitas oportunidades é um mundo de ficção. Tudo bem, juízes, promotores, defensores e advogados também dizem isso do jornalismo.
Ficção ou realidade, tanto nós quanto eles devemos trabalhar sem censura para que as instituições funcionem melhor no país.
Até a próxima.
Renascimentos
Soares Júnior | Soares Júnior | 27/06/2008 09:00:00
O nascimento é uma idéia diametralmente oposta à solidão. O nascimento é um revelar de cores, é a descoberta de um novo sabor a cada segundo. Nascer é a melhor parte da história da vida. É o momento que temos certeza de que a vida está toda a nossa frente.
As mudanças de fase da vida são florescimentos. Começam as novidades: a primeira matéria, a o primeiro salário, a primeira bronca, o primeiro tombo... Todos esses fatos temperando o nosso dia-a-dia.
De casa trazemos o afeto que irá nos proteger e alimentar. Afeto esse que é como placenta do útero materno. Placenta e couraça para tornar suportáveis as primeiras tormentas. A gente vive nascendo a vida toda. Em todos os nascimentos no renovamos.
O jornalismo me parece ser uma ponte sobre um despenhadeiro profundo. Ponte sem guarda corpo. Muitas vezes caminhamos com uma venda e para piorar muitas vezes uma sádica platéia torce pela queda.
O patrimônio formado pelos nossos amores e desalentos, pelas flores colhidas e a as que, frustradamente, deixamos no jardim nos permite prosseguir.
No nascimento a mãe está sempre lá. Ela é a fornecedora da placenta, ela é o amor. Amor que forja a nossa auto-estima. Amor com responsabilidade. Amor e responsabilidade são, na minha opinião, os principais requisitos para exercer este sacerdócio. Sim, essa profissão é quase eclesiástica, tendo em vista que trabalhamos no Natal, Reveillon e na Páscoa. O fato de ser dia santo não interfere no fato de que temos que cumprir nossas tarefas.
Escrevemos, falamos, gravamos, fotografamos e exibimos o evangelho de nossos dias. O jornalista tem a responsabilidades para com o agora e deve ter amor pelo legado que vai deixar. Daqui a 100 anos são nossas reportagens que recontarão a saga dos dias atuais. Que imagens, palavras e sons seremos capazes de deixar?
Fazemos parte daquele grupo que deve deixar nossa época menos fria e mais justa. Como fazer isso? Sendo honestos e cobrando ética dos atores sociais no cumprimento dos respectivos papéis.
Cumprir adequadamente o papel me lembra honestidades, me lembra responsabilidades, me lembra companheirismo, me lembra amor, lembra pai e mãe, me lembra nascimento e renova em mim a sensação de não estar sozinho para seguir no caminho. Nunca estamos.
Bons nascimentos, muita vida e muito amor.
Até a próxima.
E por falar em renascimentos, ouça a parte final da entrevista com a jornalista Nívia Carvalho, coordenadora de Treinamento e Desenvolvimento do Infoglobo. Nívia dá dicas de como se comportar numadinâmica de grupo. Conseguir um estágio é desses nascimentos.











