SRZD | Thatiana Pagung

Mande seu samba concorrente para 2009


Voltei, aqui é meu lugar...

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 21/08/2008 19:39:46

Retorno ao Brasil depois de duas semanas nos EUA, e, na bagagem, não trago nenhuma moda americana. Trago mais Brazil para o Brasil! Pois é, além de passar duas semanas estudando inglês, fazendo contatos e passeando, visitei locais nos quais me senti pertinho de casa. Fui à Casa do Samba, conheci uma escola de samba e participei de uma Noite de Samba. Existe samba de primeira em Los Angeles, feito por brasileiros e por gringos com ginga brasileira. O que esses brasileiros e americanos têm em comum: a paixão pela nossa cultura. Como diz meu amigo David de Hilster, americano, presidente da escola de samba SambaLá: ele é um carioca da clara (por ser branquinho), pois a essência é totalmente carioca, é um sambista nato, que canta samba e toca todos os instrumentos.

Em plena quinta-feira, dia 07 de agosto, eu estava curtindo um pagode com o Grupo SambaJah. Foi super divertido. Algumas músicas, que são novidades lá, já são mais antigas aqui, aí vivenciei aquele momento saudade.

No dia seguinte fui à Casa do Samba. Lá o esquema já foi diferente; nada de pagode, somente samba, com bateria ao vivo. Não são muitos ritmistas, mas o suficiente para fazer um batuque bacana no ambiente. A Casa do Samba é comandada pelo Bia Ferreira e pelo Israel Ferreira. Toda sexta-feira acontece o ensaio num Bar/Clube, onde a bateria se apresenta com seu Mestre Sidney Lisboa, e sua Rainha Diane. Israel segue os passos do pai, Luiz Ferreira, que em 1992, fundou a MILA (Mocidade Independente de Los Angeles), que hoje não existe mais.

Sambei bastante e vi muitas pessoas diferentes sambando. Nosso ritmo realmente contagia a alma. As pessoas parecem não cansar. Enquanto tiver batuque, elas estarão no meio do salão. Os brasileiros matam a saudade e quem não é brasileiro embarca na folia. Senti muito orgulho de ser brasileira. Foi bonito de ver nossa cultura sendo mostrada de uma forma tão autêntica.

Agora, bonito mesmo é o trabalho da SambaLá. SambaLá é uma escola de samba fundada em 1994 e que desfila com aproximadamente 500 pessoas em Long Beach todo ano durante o verão californiano. Este ano o desfile será no dia 28 de setembro. Tive o prazer de ser convidada para ser a Rainha do Carnaval de Los Angeles, ao lado de meu amigo, Rei Momo, Alex de Oliveira.

O presidente da escola é o David de Hilster, o mesmo que, no ano 2000, conseguiu levar para a Marquês de Sapucaí a escola de samba Unidos do Mundo. Desfilaram abrindo o Sábado das Campeãs. Foi um projeto corajoso, conseguir reunir pessoas do mundo inteiro para desfilar.

Foi lindo, lembro que foi um espetáculo inusitado. Martinho da Vila compôs o samba, e Neguinho da Beija-Flor veio cantando. David também estava no carro de som. Tomara que o projeto aconteça novamente, o que é desejo de David. O trabalho que a SambaLá desenvolve é impressionante. Ao lado de sua esposa, Doris de Hilster, e de sua Madrinha de Bateria Valeria Ruggieri, eles dão aulas de samba, promovem eventos, dão palestras, workshops e têm seu próprio ateliê.

Participei da gravação do samba-enredo para o próximo carnaval, que homenageará as crianças. A intérprete chama-se Renni Flores. Agora, faltando um mês para o carnaval em Los Angeles, todos por lá estão no mesmo pique que vivemos aqui, uma correria só. Começam a virar noites para finalizar os últimos detalhes. Chegarei lá três dias antes do evento, nos últimos preparativos, no meio da adrenalina. Confesso que gosto. Afinal, quem gosta de carnaval mesmo, adora esse pique, esse clima dos bastidores.

Falando em bastidores, voltei numa época das mais quentes, senão a mais quente do mundo do samba: os cortes de sambas. Adoro essas discussões de quem deve vencer, de qual samba é o melhor... Isso que nos torna cada vez mais apaixonados por essa festa linda chamada Carnaval.

Quem quiser conhecer mais sobre:
SambaLá: www.sambala.org
Casa do Samba: www.casadosamba.com
Grupo SambaJah: www.samba-jah.com


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Chaguismo versão 2008

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 30/07/2008 23:33:48

Em 27 de fevereiro de 1980, a revista Veja publicou uma matéria com o  título "Samba de uma nota só" No subtítulo: "Um carnaval com três vencedoras. A Riotur, o bicho e a política conseguiram o impossível: um desfile de escolas de samba sem perdedoras".

A Beija-Flor, a Portela e a Imperatriz Leopoldinense empataram em primeiro lugar. E três escolas dividiram o segundo lugar: Vila Isabel, União da Ilha e Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas, de todas, a que mais festejava era a Unidos de São Carlos, com o último lugar. O motivo? Bem, esta não era protegida por bicheiro, mas pelo então deputado Miro Teixeira, herdeiro presumível do governador Chagas Freitas, jornalista e político brasileiro. Após chegar ao governo do Estado,  seu nome deu origem a uma fase política chamada chaguismo - uma forma particular de utilizar a máquina pública estatal para vencer as eleições por meio de acordos políticos e apoio às lideranças locais. Com isso, Miro Teixeira conseguiu a anistia da agremiação, ou seja, não foi rebaixada como deveria.

Segundo Veja, Miro Teixeira, tinha um fraco pela Unidos de São Carlos, mas cuidava de todas. Passava a noite, a madrugada e a manhã de segunda para terça, depois do desfile de domingo, assistindo à exibição do grupo da segunda divisão das escolas, na época chamado de Grupo 2. Aplaudia, em local visível, todas as agremiações e beijava todas as bandeiras das escolas, hábito que foi inaugurado por Negrão de Lima em 1969, quando beijou o pendão verde-e-rosa da Mangueira. Essa rotina rendera a Miro Teixeira dois títulos: o de deputado mais votado do país, mas também o de campeão de beijos, claro.

Estamos agora em 2008. Será que mudou? Não, nada mudou. Aproveitando-se de que o carnaval é um laço social, políticos e candidatos nas próximas eleições já começaram sua campanha pelas escolas de samba e pelos  órgãos administrativos responsáveis por elas.

O candidato à prefeitura do Rio, Eduardo Paes, já visitou a quadra do Salgueiro, a quadra da Vila Isabel, e já participou de um encontro na sede da Associação das Escolas de Samba, onde prometeu bancar o Condomínio do Samba (barracões para escolas do Grupo A) .

O também candidato à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella, visitou a Mocidade Independente e também já foi recebido na Liga Independente das Escolas de Samba, e disse que o projeto Condomínio do Samba é totalmente viável e diz, também, que quer investir nos carnavais de bairro e nos Grupos de Acesso, que estão em péssimas condições, mas que geram emprego e renda.

A Liesa, democraticamente, está de portas abertas ouvindo  os candidatos que a procuram com idéias sobre o mundo do carnaval.
Apenas o candidato à prefeitura Paulo Ramos não visitou a Liesa, e fez críticas à visita de Marcelo Crivella. Achou um absurdo Crivella beijar a mão de um integrante da Liesa, pois considera um segmento alvo de ações criminais numerosas. Paulo Ramos disse ainda que, na sua administração, o comando do carnaval não pertencerá mais à Liesa. 

Enfim, há um ditado que diz o seguinte:  em eleição vale tudo. Será mesmo? Começando pelo candidato Paulo Ramos, acho que ele tem o direito de não querer ir à Liesa, mas hoje esta instituição exerce um papel importante na definição dos rumos do carnaval. A meu ver, é precipitado ter como finalidade sua extinção pura e simples, sem uma discussão mais aprofundada sobre o impacto dessa decisão. A declaração soa como um rompante de campanha eleitoral; além disso, falta um complemento, uma alternativa à idéia de tirar o carnaval da responsabilidade da Liesa.

Sobre a ida de outros candidatos, no entanto, vejo como algo positivo. Seria tão bom que as escolas de samba, diferentemente do passado, pudessem ter a parceria - verdadeira - do poder público, sem que a isso estivesse atrelada a barganha do voto fácil. É no dia dos desfiles das escolas de samba que vemos uma verdadeira multidão de políticos, alguns travestidos de folião, outros de componentes, geralmente usando uma camisa de diretor e com um compromisso ímpar de beijar e apertar mãos.

Todas as escolas precisam do poder público, de uma forma ou de outra; o que contesto é esta aproximação em período eleitoral, pois a escola de samba não pode ser tratada como curral eleitoral. O que candidatos e políticos devem fazer é procurar as agremiações e as entidades representativas com propostas e idéias que visam ao aprimoramento e tragam benefícios ao carnaval. Isso está longe do conceito do troca - troca do chaguismo carnavalesco. E, nas atuais circustâncias, muito perto da utopia.


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O céu recebe musas da alegria

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 21/07/2008 09:35:57

No início da tarde de sábado, ao acessar os sites de carnaval, deparei com uma notícia que muito me emocionou. No fim da tarde, outra notícia me surpreendeu. No intervalo entre as duas, reflexões, muitas reflexões.

Os leitores, evidentemente, já sabem do que se trata.  

Dolores Gonçalves Costa, a querida Dercy Gonçalves, sempre será lembrada por sua alegria de viver. Atriz e comediante de expressão única, sabia como arrancar boas risadas de seu público, com seu jeito polêmico e escrachado. 

No carnaval, ficou marcada com a homenagem feita pela Viradouro em 1991, com o enredo "Bravíssimo - Dercy Gonçalves, o retrato de um povo", onde, mais uma vez, surpreendeu a todos desfilando com os seios à mostra.

"Ah! Obrigado Dercy,
Mercy, Dercy !
Abriu-se as cortinas pro seu show
São cinco letras a sorrir"

Mas, se há uma coisa que me faz lembrá-la, são as chanchadas. Já escrevi aqui, há pouco tempo, sobres esses filmes com estética carnavalesca - em muitos dos quais Dercy nos encantou com sua espontaneidade na interpretação, ao lado de grandes parcerias, como Grande Otelo, Chico Anysio, Costinha e Zé Trindade, entre outros. Por ser cineasta, tive o prazer de assistir a praticamente todos os seus filmes. O de que mais gosto chama-se "Entrei de Gaiato", de 1959, que é simplesmente impagável. Ao morrer, já havia recebido as flores em vida.

Antes de saber da passagem de Dercy, chorei, baixinho, a morte de Jacqueline Nascimento.  Rainha, musa, princesa. Os adjetivos conquistados por ela no carnaval não eram maiores do que os adjetivos que qualificavam sua pessoa: alegre, simpática, doce.

Tinha apenas 31 anos. Muito ainda havia por conquistar. Por que ir embora tão cedo? Por que não deixá-la viver mais décadas, terminar de construir uma obra que estava começando? São perguntas naturais, nascidas da dor, da revolta; eu mesmo as fiz, antes de muito refletir. Mas a ausência de respostas apenas amplia a angústia. Não é consolo: os desígnios de Deus são tão grandes, tão grandes que jamais conseguiremos apreendê-los, e é isso, por mais estranho e paradoxal que seja, que torna a vida bonita, misteriosa, radiante.

Hoje o céu está mais alegre. Acaba de receber duas musas. Sei que muitos não acreditam nisso. Não faz mal. Encerro este texto com um poema de Bruno Tolentino, chamado "Flautim", que resume nossos sentimentos:

Guardaremos juntos
os acertos, breves,       
os enganos, fundos

e aquele remoto
amparar de parcos,
altivos escolhos.

Cairão o signo
e a secreta cinza
desse ardente enigma.

Não lamentaremos
mais que o desencontro
dos humanos termos,

a rápida marca
que o passado imprime
na face, na máscara,

e os puros despojos
que às vezes são versos
e sempre são ossos.

Não diremos nada
dos velhos desejos
que a memória abraça,

sem qualquer palavra
não recordaremos
o que nos pesava,

mas apenas isso
que nos pese ainda:
ter vindo, ter sido.


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O destemido Paulo Barros

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 12/07/2008 11:26:40

"Acreditar, desafiar
Superar os limites do homem
Brincar de Deus, criar a vida
Querer voar e flutuar"

Em 2004, a Unidos da Tijuca acreditou no até então "desconhecido" carnavalesco que vinha do Grupo de Acesso, e ele desafiou, superou os limites, brincou de Deus, e levou para a avenida o carro "Criação da Vida", o tão famoso carro do DNA,  ganhando o Estandarte de Ouro na Categoria Revelação. Do alto do carro, figurantes coreografaram com os braços, simulando a presença e o movimento dos genes humanos. Foi um desfile sensacional, realmente, em todos os segmentos. Foi assim que o mais polêmico dos carnavalescos dos últimos anos começou sua trajetória no Grupo Especial. Paulo Barros passou a ser conhecido como ousado, inovador,  carnavalesco das "alegorias humanas". Voou do Acesso para o Especial e flutuou na fama repentina.

O impacto de seu trabalho foi tão forte que gerou expectativa em torno de seus desfiles. Não aceitariam que seus desfiles fossem inferiores ao de 2004, ou menos ousado. Pois é, a fama lhe trouxe ônus e bônus.

Vejo várias pessoas criticarem o trabalho de Paulo Barros. Por que será? Será que a culpa é dele mesmo, ou do tal assédio da mídia em torno de seu nome, devido ao repentino sucesso de 2004?

Não estou aqui para defendê-lo ou dizer que gosto 100% de seu trabalho, até porque não gosto de tudo. Gosto é gosto, e cada um tem o seu. O que mais gosto em Paulo Barros é a coragem que tem em ousar, não se importando se sua arte está nos padrões estéticos convencionais. Aliás, convencional ele não é nem um pouco. Não tem medo de externar sua arte da forma como pensa, como sente.

Porém, os critérios de avaliação no Carnaval ainda são muito subjetivos. As escolas são avaliadas de forma comparativa. Então, como avaliar um carnaval de Paulo Barros, se a cada ano ele se distancia do carnaval das outras escolas, quase criando uma nova forma de carnaval? Cabeça de jurado ninguém entende. Quando deparam com esta situação então, tudo pode acontecer.

Sua obra é um tanto quanto expressionista e surrealista, muitas vezes se torna transgressora demais. Após o carnaval de 2008, Bruno Filippo, coordenador do Instituto do Carnaval e colunista do site O Dia na Folia, escreveu em sua coluna "Acadêmicos do samba" o artigo intitulado "O carnaval descarnavalizado de Paulo Barros". É isso mesmo: o que conhecemos sobre desfile de escola de samba está muitas vezes longe de ser o que é apresentado em alguns momentos no desfile de Paulo Barros. Um grande artista; mas, para que seja melhor compreendido, talvez tenha que se adaptar às regras do sistema, e isto me parece ser uma questão agressora a seus ideiais, extremamente particular, para o artista que é. Dosar sua ousadia com a carnavalização que todos esperam, sem perder seu estilo próprio, pode ser a solução, mas não sei  se ele estaria disposto a aceitar este enquadramento.

Em 2009 teremos Paulo Barros em dose dupla; no Acesso pela Renascer, com a parceria de Paulo Menezes, e na Vila Isabel, com a parceria de Alex de Souza. Essa parceria com carnavalescos mais tradicionais, talvez traga o que citei anteriormente: uma ousadia sem perder a carnavalização. Desejo sorte as duas escolas.

Enfim, para os amantes das artes, das boas idéias, da transgressão artística, da ousadia, do novo, da representatividade sob um novo ângulo e da imprevisibilidade, a sua importância vai além do que ele seria capaz de "aprontar". E a mais pura verdade é que, goste-se ou não dele, todos o esperam na avenida.


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Torcedores, façam suas apostas

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 03/07/2008 01:47:43

Nos anos 80, a revista britânica The Economist - uma das mais influentes publicações do mundo - pediu a um grupo de economistas que fizessem previsões sobre os rumos da economia mundial nos dez anos seguintes. Fez a mesma enquete com um grupo de garis. Uma década depois, cotejou as previsões. Sabe quem acertou mais? Isso mesmo: os garis!  

Essa história me voltou à mente após o sorteio da ordem dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, que aconteceu na última segunda-feira de junho. Pensei: será mesmo que, através da sua ordem de entrada na passarela, podemos dizer que uma e outra são favoritas? Bem, na verdade não, mas nós assim o fazemos, inclusive eu. Eu acho tão engraçado. São tantas opiniões. Bom, vamos por partes, para me fazer entender.

Assim que acaba o carnaval, começam os troca-trocas. Com isso, dependendo das mudanças, algumas pessoas já começam a dizer, por exemplo: "Olha, se "fulano" foi para lá, é porque ano que vem essa escola vem com tudo!", entre outros comentários, já querendo advinhar se uma escola ou outra virá entre as melhores ou piores.

Passa mais um tempo, e começam a surgir os temas dos enredos, sem as sinopses. Mais uma vez, começam a avaliar a escola, e já decidem até as que poderão cair de grupo.

Acontece, em seguida, o tal evento que me fez parar para pensar, o sorteio da ordem dos desfiles. E aí, então, é como se as escolas já soubessem se terão sorte ou azar, de acordo com o dia de desfile e a ordem de apresentação. 

Bom, lá para agosto, teremos a apresentação dos enredos, num outro evento. Mais uma vez, os amantes do carnaval farão suas apostas, e muitos já terão esquecido até da ordem do desfile. Falarão das escolas que se destacarem na noite - e, mais uma vez, serão apontadas as favoritas, que não necessariamente têm de ser as mesmas citadas anteriormente, enquanto se analisavam apenas ordem de desfile e tema.

Passaremos em seguida pelas escolhas de sambas-enredos... Outra fase "quente" no mundo do samba, em que as emoções ficam à flor-da-pele. Nesse momento, se a escola que estiver abrindo o desfile, escolher um bom samba, já deixará de ser uma escola que teve azar no sorteio e passará a ser a escola sortuda, que levantará a avenida.

Quase terminando o ano, acontecem as festas para exibirem as fantasias. Dependendo do protótipo, a escola que, até aquele momento, não estiver com uma boa ordem de entrada, com um bom enredo, com um bom samba, mas com lindas fantasias, luxuosas, passará a ficar entre as melhores, e candidatas ao título.

Às vésperas do carnaval, então, já começam a aparecer até as supostas campeãs, só pelas visitas aos barracões.

Bem, a essa altura, tanto faz se a escola estará abrindo ou fechando o carnaval.

Deveríamos arquivar os comentários que nós, especialistas, fazemos a cada evento que antecede o carnaval, para que possamos ter noção mais exata de como é difícil antever o que se passará na avenida. Não há ensaio, protótipo, sorteio, samba-enredo, enredo que antecipe a campeã do carnaval. E que bom que seja assim! Nada mais chato do que algo previsível.


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Não existe mais quente

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 24/06/2008 04:10:18


A terceira edição da feijoada da Estrela Guia, realizada no dia 15 de junho, na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel, marcou o retorno de Andrezinho, filho de Mestre André, para escola. Ele desempenhará a função de coordenador de bateria, ao lado de Jorjão e Mestre Jonas.

Que tarde maravilhosa Andrezinho nos proporcionou! Ele levou, para se apresentar na quadra, a BN10 Velha Guarda do Ritmo de Padre Miguel. Foi sensacional! Foi difícil não se emocionar!

BN10 significa Bateria Nota 10, e "Velha Guarda do Ritmo de Padre Miguel" surgiu porque, na década de 70, nas carteiras dos ritmistas não vinha escrito bateria, e sim, Ala Mocidade do Ritmo.

O Mestre da Bateria Nota 10 chama-se Celso "Meu Querido". Num determinado momento, ele bate com o dedo no chapéu (que significa um sinal para os ritmistas), começa a sambar e, de costas para a bateria, tira o chapéu. Nesse momento, a bateria pára. Cumprimenta o público à sua direita, abaixando a cabeça e o chapéu, e levanta-se, respondendo à ovação que acabara de receber. Faz o mesmo à frente, e no lado esquerdo. Logo em seguida, dá um giro colocando o chapéu, e a bateria sobe, tocando muito. Essa "coreografia" era feita por Mestre André, e Zé Bolinho fez questão de manter. Há um momento em que eles parecem se desentender, simulam uma briga, mas tudo não passa de uma abertura para que Celso do Agogô se apresente, em seu momento solo.

Depois, também num momento solo, Lindomir da Cuíca, tocando ?Samba de uma nota só?, é um show à parte.

À frente da bateria, Madrinha Celi, que conhece como ninguém seus afilhados.

A alegria, o sorriso no rosto, o prazer desse ritmistas em tocar nos cativam e os tornam diferentes. São verdadeiros artistas. Sentem a música com o coração.

O grupo surgiu em 2003, fundado por André, mais conhecido como Zé Bolinho. Na época, conta ele, uns empresários italianos tinham um projeto para umas apresentações na Quinta da Boa Vista, e queriam um grupo de 80 ritmistas da Mocidade, tocando com o swing das décadas de 70, 80 e 90. O projeto nunca se concretizou, mas a BN10, depois de formada, nunca mais parou. Já fizeram apresentações em diversos lugares, e sempre emocionam por onde passam.

Zé Bolinho entrou na bateria da Mocidade em 1969. Saiu em 2002, onde já era diretor da bateria ao lado de Mestre Coé. O motivo, diz ele, foi  não concordar com as modificações que o ritmo vinha sofrendo, tornando-se cada vez mais acelerado. Hoje, Zé Bolinho é o presidente da BN10, que, com ele, soma 32 ritmistas, todos discípulos de Mestre André, e esses mantêm a mesma essência, o mesmo swing, a mesma cadência - o que não significa ser arrastado nem veloz. Simplesmente se consegue viajar no ritmo.

A BN10 retorna à Mocidade para ficar. Até o nome está sendo modificado para BN10  Velha Guarda do Ritmo da Mocidade Independente. Como será essa integração eu não sei; só sei que os jovens ritmistas daquela comunidade terão a oportunidade de aprender com a raiz do ritmo da escola. E, no futuro, quem ganha é a nossa cultura, o nosso samba e o nosso carnaval.

Enfim, o retorno de segmentos importantes acende, definitivamente, a luz no fim túnel da Mocidade. O retorno da BN10 passa a ser emblemático e de uma importância muito grande. Muitos ritmistas, que estavam afastados da agremiação, retornam seguindo o exemplo da BN10, reforçando o carro-chefe da escola, que é sua bateria. E, com isso, o novo nome dado à bateria por Andrezinho tem mais do que um simples efeito de palavras, reafirma as tradições da escola e vislumbra um futuro vitorioso a ser alcançado. Lá vem a bateria da Mocidade Independente - Não existe mais quente!


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Obrigada, Mestre

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 14/06/2008 14:18:36

Não apenas o mundo do samba, mas também a música popular brasileira perde um dos seus maiores intérpretes. Com uma afinação sem igual, José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, cantou e nos encantou com sua voz marcante.

O maior dos mangueirenses e ícone do nosso carnaval nos deixará saudades.

Obrigada, Mestre, pelos seus ensinamentos e por toda contribuição à nossa cultura brasileira.

"Jamelão teu passado de glória
está gravado na história
é verde e rosa a cor da tua bandeira
pra mostrar a esta gente
que o samba é lá em Mangueira"


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O futuro do carnaval

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 09/06/2008 18:08:42

Nasci num dia de carnaval. Quando era criança, meus pais me fantasiavam e me levavam para brincar num coreto perto da minha casa. Carnaval e aniversário sempre se misturavam, fazendo do carnaval uma grande comemoração e da minha comemoração um grande carnaval! Em casa, ficava vidrada na tv, assistindo aos desfiles. Não tive a oportunidade que muitas crianças têm hoje de brincar desfilando nas escolas mirins. Mas, agora, sempre desfilo ao lado delas na Estrelinha da Mocidade, escola com a qual, pelo terceiro ano consecutivo, tenho o prazer de colaborar.

Em 2007, tive a honra de ser presidente da Estrelinha. Por isso, posso falar deste universo ainda desconhecido. A construção do carnaval de uma escola Mirim é tão trabalhosa quanto a de uma escola de samba adulta. Procedimentos como escolha de enredo, de samba-enredo, ensaios etc em nada diferem dos da "escola-mãe". Pude observar a competição (salutar, diga-se de passagem) entre a criançada. Muitas com um veio artístico precoce e um comprometimento de quem, como a criança que escolheu seu time de futebol influenciado pela família, herdou o amor ao carnaval daqueles que as levaram para se integrarem a uma escola mirim.

A escola mirim não é apenas diversão, mas também trabalho social - e bota trabalho nisso, ufa! É onde as "escolas-mãe" também contribuem com sua comunidade, tirando parte da criançada das ruas, oferecendo cursos, criando uma identidade interpessoal e revelando novos talentos, além de muitas outras atividades. Talvez muitos não saibam, mas as crianças, para desfilar, têm de estar matriculadas na escola, o que se torna um incentivo a mais para que elas estudem.

Na sexta-feira de carnaval acontece a abertura oficial do carnaval carioca, com o desfile das escolas mirins. O Rei Momo e sua Corte Real, após receberem das mãos do prefeito do Rio de Janeiro a chave da cidade, encaminham-se para a Marquês de Sapucaí, onde então, simbolicamente, abrem a Passarela do Samba.

O desfile começa cedo, por volta das 17h. É um dia de intensa movimentação na cidade, principalmente no Centro do Rio, devido aos preparativos para o carnaval. Há pessoas que vão viajar, há as que brincarão o carnaval em outros locais, longe de toda a multidão que estará assistindo, ao vivo, aos desfiles. Com isso, a atenção com as crianças fica dobrada.

A organização do desfile fica por conta da AESM-RIO (Associação das Escolas de Samba Mirins), à qual dezessete agremiações são afiliadas. Cada escola desfila, nos trinta minutos estipulados, com número de componentes que varia de 1000 a 2000 crianças. Todas as crianças desfilam com um crachá pendurado no pescoço, e nele constam os dados sobre ela e sobre seu responsável. A parte "adulta" da escola se faz presente organizando o desfile e tomando conta dos pequeninos.

Realmente é um dia mágico, pois a abertura oficial do carnaval começa com a pureza e a beleza das crianças. Elas não concorrem entre si, isto é: não existe 1º, 2º lugar e etc.

É emocionante ver um "pequenino" ou "pequenina" sambando, ou tocando como "gente grande". Este é o nosso Brasil, de artistas natos, de pessoas que nascem com a cultura à flor da pele, principalmente o carioca, pois nasce no berço do samba.

As crianças parecem ensinar aos mais velhos como se comportarem num desfile, porque dão um show de espontaneidade e alegria de viver. A pureza que vem da alma contagia a avenida e nos inunda de emoção, fazendo com que "gente grande" volte a se sentir criança novamente. Bem, ao menos é assim como me sinto... Feliz como uma criança... Hum... Deu uma saudade danada agora do carnaval... É assim mesmo. Para quase tudo a saudade dá e passa, mas, para os amantes do carnaval, nunca passa; na quarta-feira de cinzas já estamos com saudade de novo! Ah... Carnaval... Contagiante, emocionante, envolvente......

Enfim, neste universo das coisas boas da escolas mirins, existem também suas dificuldades. Não poderia deixar de mencionar a falta de apoio do poder público, e o não engajamento de empresas que fundem seus interesses com o social. As escolas mirins são uma grande oportunidade de diminuir este distanciamento social existente. Por intermédio delas, seria possível atender uma enorme quantidade de crianças que estão fora do extrato social, criando condições de inclusão social. Este trabalho, infelizmente, ainda não mereceu a atenção devida dos diversos setores da sociedade. Com isso, as escolas mirins são obrigadas a fazer um grande esforço que, na verdade, não são percebidos por muita gente, até mesmo da grande mídia. Na verdade, para grande mídia, carnaval só acontece domingo e segunda. Mas isso já é outro assunto.

 


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O Carnaval no cinema

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 02/06/2008 00:32:00

No curso de férias "Cinema e Carnaval", que ministrei no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, enfatizei que o samba e o carnaval sempre estiveram, ao longo das décadas, representados no cinema. Desde 1908, quando foi feito o primeiro registro em película do carnaval brasileiro, os dias de folia nunca mais saíram das nossas telas, mesmo que periodicamente aconteça um hiato entre produções do gênero.

A chanchada foi o genêro que marcou a cultura carnavalesca nas telas, pois, mesmo com todas as críticas, lotou as salas de cinema, sendo um sucesso de público nas décadas de 30, 40 e 50.

O Cinema Novo trouxe à estética carnavalesca a realidade do cotidiano da época, e grandes obras do gênero foram realizadas, como por exemplo, o filme "Rio 40º", de Nelson Pereira dos Santos, onde mostra o cotidiano carioca através de um olhar neo-realista. Com esta crônica generosa, singela e abertamente influenciada pelo cinema italiano do pós-guerra, Nelson Pereira dos Santos provou ser possível produzir filmes mais baratos e autorais no Brasil. A música "A voz do morro" de Zé Kéti (ele também participou do elenco) fecha com chave de ouro o filme.

Nas décadas seguintes apareceram outros gêneros, deixando um pouco de lado a narrativa carnavalesca, como a pornochanchada, filmes de caráter policial, político, o Cinema Marginal, e etc. O cinema brasileiro entrou em produção quase zero, na década de 90, devido à Lei Sarney, ao fim da Embrafilme e ao fim da reserva de mercado para o filme brasileiro.

De alguns anos para cá, observamos a ascensão novamente do cinema brasileiro, num todo; e também, de forma ainda tímida, a retomada de produções voltadas ao universo do carnaval.

Entre os dias 14 e 25 de maio aconteceu o Festival de Cannes. Um dos eventos cinematográficos de maior expressão no mundo teve o samba em sua lista de exibições, e encerraria, com chave de ouro, o Festival no domingo passado, dia 25. Infelizmente, não ocorreu devido ao mal tempo e fortes ventos. O local onde seria projetado o filme era ao ar livre, nas areias da praia de Cannes, e a organização decidiu cancelar a exibição.

O documentário "O Mistério do Samba" com a direção de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda, apresenta histórias que o grande público desconhece. O longa-metragem fala sobre a história e o cotidiano dos integrantes da Velha Guarda da Portela. Em vários momentos, a cantora Marisa Monte conduz as entrevistas. Também no filme estão presentes Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho, freqüentadores e admiradores da Portela.

O projeto, que teve início há 10 anos, foi idealizado quando Marisa Monte, fazendo as pesquisas para o CD Tudo Azul, começou a  resgatar a obra musical dos compositores da Velha Guarda da Portela. A cantora se apresenta como co-produtora e co-roteirista, trazendo ao filme um olhar mais próximo da realidade, mais natural.

Este ano o cinema brasileiro foi agraciado com um importante prêmio no Festival. Uma atriz brasileira ganhou a "Palma de Ouro" por sua excelente interpretação no filme "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniela Thomas. Sandra Corveloni interpreta Cleuza, uma empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos e está grávida novamente de mais um pai desconhecido.

Enfim, para o mundo do samba seria muito importante que mais produções sobre a cultura carnavalesca fossem produzidas. Agora, vamos ter que segurar a curiosidade e esperar até agosto para assistirmos ao documentário, pois é a data prevista para ser lançado aqui no Brasil.


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É o amor

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 24/05/2008 03:05:00

Domingo, dia 18 de maio, aconteceu na quadra da Mocidade Independente a segunda feijoada da Estrela Guia, em que a principal atração foi o novo intérprete da escola, Wander Pires. Sou vegetariana, mas acredito que a feijoada estivesse maravilhosa, porque Tia Nilda e suas baianas são craques no samba e na cozinha. Mas sobre o Wander Pires, hum... Foi emocionante seu retorno! Ao subir no palco cantando a música Sangrando, de Gonzaguinha, sua interpretação me fez refletir sobre esta belíssima poesia.

Sangrando
(Gonzaguinha)

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é minha força pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de dizer o que é amar
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é minha força pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de dizer o que é amar

Esse momento me fez pensar no quanto nos identificamos com as vozes dos intérpretes, e com seus gritos de guerra.

"Alô, meu povão de Padre Miguel!!! A hora é essa!!!"

"Olha a Beija-Flor aí gente, chora cavaco!"

"Aaaaaaaarrepiaaaa Salgueiro! Pimba, pimba. Ai, que lindo! Que lindo!"

E muitos outros.

Quando a sirene toca na avenida e é anunciado o início do desfile, o grito de guerra vem para embriagar, para mexer com o componente, tendo a força de uma ordem. Mexe tanto com a gente que, sem ele, seria como não ter o start. Como uma senha, é a combinação entre o intérprete e todos os torcedores e componentes daquela agremiação, o que dá início a um uníssono e contagiante canto capaz de arrepiar a todos que estiverem entregues ao momento.

É o grito entalado na garganta de meses e meses de trabalho, de expectativa, de ansiedade, de crença em que sua escola fará o melhor de si.

É o grito de quem trabalhou no barracão, na quadra. É o grito de quem quer liberar o estresse e ter seus minutos de felicidade, independentemente do resultado na apuração. Você observa o brilho nos olhos, os tremores nas mãos, os corpos suados transbordando raça e emoção, e o sal molhando esses sorrisos, pois as lágrimas não saem apenas dos olhos, mas também do coração.

Por isso, intérpretes queridos, profissionais que admiro, ao soltarem suas vozes, não precisam dizer "por favor, entenda", porque entendemos perfeitamente que é o jeito de vocês de dizer o que é amar.


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Luma ?polêmica? de Oliveira ? Parte II

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 12/05/2008 18:14:11

Mundo do samba, as apostas estão encerradas: a musa Luma de Oliveira desistiu de concorrer à presidência da Viradouro.

Particularmente, gostaria de ver o exercício da democracia nesta escola de samba. Seria interessante o confronto de idéias e de objetivos; por um lado a Luma quebrando o "paradigma" e mostrando seu lado profissional; por outro, Marco Lira reafirmando que os rumos da Viradouro estão bem amparados em sua gestão.

Agora, já que resolveu declarar publicamente esse amor e essa preocupação pela Viradouro, ela poderia, então, ser mais atuante na agremiação, apoiar os trabalhos sociais e culturais, pois sua contribuição para a comunidade seria de muita importância, devido seu carisma e popularidade.

Ao que parece, ela não desistiu da idéia de concorrer à presidência da Viradouro: acredito que adiou momentaneamente. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.

Boa sorte, Viradouro! Espero que o presidente que esteja à frente desta querida escola, independentemente de quem seja, coloque-a no lugar de destaque que merece. E como falei anteriormente, espero que a comunidade entenda que a estrela maior é a própria agremiação, e que as pessoas passam e a instituição fica, pois esta sim é eterna.


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Luma ?polêmica? de Oliveira

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 11/05/2008 20:24:08

"Gosto de ser vista e admirada. Ainda mais no Carnaval, porque me sinto ao mesmo tempo súdita e rainha. Não chega a ser uma coisa sexual, mas é um prazer enorme, mais que uma sensação de poder" - Luma de Oliveira, modelo.

Arnaldo Antunes compôs a música seguinte, que se encaixa perfeitamente no depoimento de Luma para a revista "Época" em 2002:

Desce

Desce do trono, rainha
Desce do seu pedestal
De que te vale a riqueza sozinha, enquanto é carnaval?

Desce do sono, princesa
Deixa o seu cetro rolar
De que adianta haver tanta beleza se não se pode tocar?

Hoje você vai ser minha
Desce do cartão postal
Não é o altar que te faz mais divina, Deus também desce do céu

Desce das suas alturas
Desce da nuvem, meu bem
Por que não deixa de tanta frescura e vem para a rua também?

O mundo do samba ficou agitado nos últimos dias por conta da notícia de que Luma será candidata à presidência da Viradouro.

Musa de vários carnavais, como foliã e como rainha de bateria, Luma está disposta a quebrar o paradigma e mostrar que tem algo a mais a oferecer ao carnaval carioca.

Descendo de seu pedestal, hoje ela quer sentir a sensação de "poder" dentro de uma escola de samba, não mais à frente de uma bateria, e sim à frente da administração da Escola.

Inicialmente, confesso, fiquei surpresa. Ela conquistou a imagem de uma das mais belas e importantes personagens do carnaval do Rio de Janeiro. Ser presidente da Viradouro é um sonho acalentado por muitos, e realizá-lo exige percorrer uma longa estrada, o que nem sempre é bem sucedido.

A função de presidente de escola de samba exige comprometimento, dedicação quase exclusiva, além de um gerenciamento sob um modelo administrativo que muitas vezes foge ao aprendizado produzido em bancos escolares. Há momentos em que somente o conhecimento da comunidade, dos seus integrantes e da sua história produz a percepção necessária à tomada de decisões importantes para a agremiação.

Ser presidente de escola de samba significa entregar-se àquela comunidade, fazer da agremiação não a segunda casa, mas sim a primeira, porque é muito trabalho, muita responsabilidade. É toda uma história que está sob responsabilidade dele.

Antever como seria a presidência de Luma é impossível; só o tempo dirá se deixará marcas positivas ou negativas. Mas prejulgá-la por ser uma bela mulher e ex-rainha de bateria, é errado, injusto e preconceitusoso. Sei muito bem o que isso significa. Às vezes eu tenho minha capacidade questionada devido ao cargo que eu ocupo. As pessoas costumam enxergar as aparências, e não o conteúdo. Por isso, louvo a atitude de Luma, de querer mostrar que tem capacidade de comandar uma escola de samba.

Sua vontade é justa, e faz parte da democracia. Agora, que seria uma grande novidade no mundo do samba e do carnaval, ah!, isto seria.

Desejo boa sorte à comunidade da Viradouro, e que no dia 25 de maio, sendo eleito Marco Lira ou Luma de Oliveira, a comunidade entenda que a estrela maior é a própria agremiação. As pessoas passam e a instituição fica, pois esta sim é eterna.


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Sonho ou realidade?

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 03/05/2008 13:09:32

Acordei tranquila. Fui até a cozinha preparar minha saladinha de frutas. Em seguida, fui ao computador ler as notícias do mundo do samba no site SRZD Carnavalesco. Ao abrir a página, tomo um susto tão grande que chego a engasgar com as frutas. A cada atualização, mais notícias do gênero apareciam na tela:

"Mestre Átila acerta sua ida para a Beija- Flor; Mestre Paulinho, indignado, está conversando com a Portela".

"Neguinho da Beija-Flor disse que a comunidade de São Gonçalo o recebeu muito bem, e que não tem este negócio de sua família ter sido agraciada com cargos na prefeitura".

"Monarco, para o carnaval 2009, escreverá para a Imperatriz"

"Tia Nilda, da Mocidade, agora rodopia com as baianas do Salgueiro".

"Delegado é o responsável pela escolinha de mestre-sala da Unidos da Tijuca, onde desfilará no abre-alas".

E as notícias não paravam... Até que… Acordei! Ufa, que pesadelo!

É tão aburdo o que escrevi acima que resolvi parar. Poderia continuar falando de tantas outras figuras importantes que tiveram um casamento indissolúvel com sua escola de samba de coração. Isso foi apenas uma brincadeira para ilustrar as seguintes questões: será que o samba e o carnaval seriam os mesmos dos dias atuais se sambistas, como os citados, tivessem trocado de escola? Será que as escolas seriam como são? Será que o espetáculo na avenida seria o mesmo?

É… tempos modernos. E as perguntas teimam em sair de minha mente: Será que a modernidade se traduz em rodízio? Em prazo de validade? A cada ano nasce um "amor" diferente por uma nova agremiação… Sei, sei… Mais uma vez: profissionais do samba versus sambistas. Tudo bem, mais onde termina um e começa o outro?

Antes dessa tal modernidade e evolução chegarem, produziam-se verdadeiros apaixonados que não trocavam de camisa; que, com suas contribuições, deixaram um legado que remete ao sucesso que o carnaval representa nos dias atuais.

Naquela época não existia o vira-casaca. Recentemente, vi um famoso jogador de futebol do Botafogo, meu time, dizer que, em toda sua vida, só vestiu a camisa do Glorioso e da seleção. Enfim, foi com este espírito que tive esse sonho louco, mediante a tantas realidades atuais de nosso samba e de nosso carnaval.


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Não existe fruto sem raiz

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 23/04/2008 18:37:46

Para ser membro de uma Velha-Guarda é preciso "ter passado". Parece trocadilho, mas não é. Detentora do saber e da tradição, representa o reduto de bambas dentro da agremiação. Muitas vezes fechando o desfile, vestem-se com elegância, destacando as cores da escola. Alguns carnavalescos tentam fantasiá-los, mas isso não os agrada muito, pois querem manter sua sobriedade. Querem apenas passar pela avenida cantando o samba, divertindo-se como foliões.

Muitos não conseguem segurar as lágrimas que teimam em rolar pelo rosto que carrega toda a vivência e dedicação ao samba. Embora não conte pontos no desfile, todas as escolas levam para a avenida com muito carinho e respeito sua ala de sambistas veteranos.

Hoje ainda temos o privilégio de conviver com muitos sambistas que viram a sua escola de samba nascer, e estão aí para contar a sua história, transmitir aos mais jovens suas experiências. São o nosso passado vivo. Tenho certeza de que a vida de muitos daria ótimos livros recheados de histórias, experiências de vida e ensinamentos. Quanto saber que aos poucos o tempo vai levando… Vários livros sobre samba e carnaval que já li, confesso, não diferem muito de uma boa tarde de conversa com a velha-guarda. Não estou desmerecendo os autores - até porque também já escrevi um, que está aguardando publicação, mas pegar a informação diretamente na "fonte" é um momento mágico.

Por que as escolas de samba, quando recebem seus patrocínios, não separam uma parte deste dinheiro para ajudar a presevar sua memória? Ah, lembrei… É porque o carnaval é muito caro, a concorrência é grande e o objetivo é vencer! Lindo, palmas! O comércio, o comércio, o comércio… E a cultura? E a memória? E a nossa história?

Fico a imaginar a velha-guarda no futuro: o que terão para contar? Quantos troca-trocas sua escola teve? Qual foi o maior carro alegórico apresentado na avenida? Que fruto teremos no futuro se não tivermos mais raiz?

A velha-guarda até tenta preservar sua história, com sede própria. Os veteranos se reúnem sempre, são muito festivos, fazem shows, algumas vendem cds. Mas será o suficiente?

Como seria enriquecedor para a nossa cultura carnavalesca poder chegar a uma agremiação e pesquisar sobre a vida de componentes daquela escola, seus fundadores, ler depoimentos de cada um, de como chegou até aquela região, como tudo começou.

Sei que existem alguns departamentos culturais se esforçando para fazer esse trabalho, mas vejo outros apenas preocupados com patrocínios para sua revista, cujo conteúdo apenas fala do enredo atual, de seus participantes e etc.

Embora se chame velha-guarda, são idosos que estão longe de sentir-se velhos. Enquanto o idoso ainda sonha, o velho já perdeu sua jovialidade, e se há alguma coisa que a velha-guarda tem, esta coisa é o espírito jovem. Enxergam a vida se renovar a cada dia com planos para o próximo carnaval, que para eles, nunca acaba na quarta-feira de cinzas.


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O que é ser da comunidade?

Thatiana Pagung | Thatiana Pagung | 16/04/2008 10:41:46

Ah... como é bom sentir uma paixão! Dedicar-se de corpo e alma a ela, unindo os apaixonados num sentimento comum, tornando-os uma unidade! Fazer parte verdadeiramente da comunidade de uma escola de samba é viver uma paixão. Entre o componente e a agremiação, estebelece-se uma relação de desejo, motivação, entusiasmo, otimismo, confiança e comunhão.

Mas percebo que se costuma fazer uma confusão entre comunidade e vizinhança.

"Comunidade impõe respeito
Bate no peito eu sou Beija-Flor"


A letra do samba da Beija-Flor do Carnaval 2008 é um bom exemplo. Eles não cantam "Comunidade impõe respeito/Bate no peito eu sou Nilópolis". Se o fizessem, estariam dizendo uma inverdade, porque nem todos os moradores de Nilópolis são torcedores da Beija-Flor ou gostam de samba.

Ser da comunidade é vestir a camisa da escola e desfilar com raça - o que costuma fazer toda a diferença. Existem pessoas que moram ao lado da quadra e não frequentam a escola, não participam da vida social e do processo de produção do carnaval. Ao passo que outras, que moram muito longe, dedicam-se bastante, com afinco, estão presentes sempre que podem, ajudam nos projetos sociais etc. Ser comunidade é ser presente de corpo, alma e coração!

Quem é morador do bairro de sua escola de samba de coração pode até se sentir "mais comunidade" do que aqueles que não moram, mas "ser da comunidade", para mim, vai além do endereço e do CEP. O folião que se identifica com uma escola carrega-a o tempo inteiro no coração. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, que tenha uma escola de coração faz parte desta comunidade específica, desde que torça por ela, emocione-se, chore. E se apaixone.


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