SRZD | Eugênio Leal

Mande seu samba concorrente para 2009


Análise dos sambas do Salgueiro

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 26/08/2008 14:24:12

O Salgueiro, mais uma vez, tem uma boa variedade de obras para escolher. Fruto da renovação de sua ala de compositores mas, principalmente, de um enredo simples, com essência e bem escrito.

O texto facilitou o entendimento de todos os compositores. Não há viagens, elocubrações, nem situações difíceis de serem explicadas. Pelo contrário, há espaço para criação e um vocabulário repleto de palavras com sonoridade interessante, que valorizam a musicalidade. 

Há uma grande quantidade de sambas num nível muito próximo a estes que vou analisar e poucos são aqueles que vão "encher o saco" do público na quadra. O equilíbrio é tão grande que um dos que eu havia escolhido para comentar já foi eliminado.

O desempenho na Silva Teles, a cada eliminatória (e também na final), será decisivo. Ali a diretoria vai sentir quem melhor se encaixa na bateria, quem mais agrada à comunidade e quem mais se aproxima da proposta de desfile. A ordem da análise segue a numeração oficial da disputa. 

Guilherme Sá, Luizinho Professor, Dartagnan do Salgueiro, Mauro Esperanza e Márcio do Swing

Tem nas suaves e refinadas variações melódicas seu ponto alto. As mais bonitas são na passagem da introdução para a primeira parte do tema ("cantar e revelar o encanto") e na abertura da segunda parte do samba ("tem candongueiro no jogo e caxambu"). À exceção do refrão final a música flui sem grandes quebras o que ajuda o canto dos componentes. A letra é inspirada e casa com a emoção da melodia, formando uma obra de alto nível.

O refrão do meio é excelente e tem um balanço muito interessante, fruto de uma divisão diferenciada na melodia. O refrão principal, entretanto, parece um tanto travado e sem força, talvez em virtude do seu jogo trançado de rimas e do excesso de sílabas no verso "pulsa na força do pavilhão."
 
Vai precisar mostrar na quadra que a melodia, em tom emotivo e romântico, se encaixa no jeitão alegre do salgueirense.

Dudu Botelho, Marcelo Motta, Luiz Pião, Muhammad e Tico do Gato

A Parceria bi-campeã aposta na manutenção de um estilo técnico que deu certo: o equilíbrio entre a empolgação e a cadência. Em 2007 e 2008 esta proposta rendeu bons desfiles à escola. É um samba pra frente e alegre, mas sem correria. A melodia é fluente e no tom certo para o cantar dos componentes.

Os refrãos são muito fortes, como a escola gosta. O segundo deles traz consigo uma proposta poética interessante ao comparar o coração com o tambor. E o intermediário tem pegada e suingue na medida certa.

A letra é correta, sem grandes invenções. Não gosto do verso "o batuque é festa e adorações". Não bate bem no meu ouvido, mas também não compromete o todo da obra que, com certeza, é uma das mais fortes favoritas.

Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso e Bené do Salgueiro

Nem melhor nem pior. Apenas...  O samba desta parceria se encaixa no slogan salgueirense. Há tempos venho pedindo que as escolas dêem chance a sambas diferentes, que ousem sair do lugar comum. Este samba é para arriscar, marcar, para fazer história - mesmo que não leve à vitória.

Ele consegue juntar uma letra com início, meio e fim - perfeitamente encadeada - com uma melodia lindamente construída e tradicional, que remete a carnavais passados sem ser ultrapassada. Um casamento maravilhoso que gerou um dos sambas mais interessantes do ano.

Destaque positivo, entre tantos, para a o refrão central ("festa na aldeia, lua cheia um clarão...") cuja melodia se encaixa na fantasia da letra de maneira a levar o ouvinte a imaginar a cena. 
 
O ponto negativo é o refrão final. Não gosto dos versos "menina quem foi teu mestre" (muito atropelado) e "um batuqueiro" (melodia simplista demais perto do resto do samba). É necessário subir um pouco o tom do trecho "meu ancestral" (quase impronunciável) e fazer o mesmo em alguns versos da segunda parte que além de baixos quase embolam tamanha a quantidade de sílabas em uma única frase musical (isso compromete o canto dos componentes).   

Josemar Manfredini, Betinho, Michel de Pilares, Miudinho e Líbero

Talvez seja a gravação mais "afiada", com mais cara de quadra de Salgueiro. Os autores contrataram o intérprete (Ito Melodia) que mais se assemelha ao titular da escola e com isso mostram que a obra pode ser interpretada por ele sem dificuldade. A bateria é a que melhor reflete a realidade de quadra e avenida. 

É um samba alegre, valente, fluente e de letra fácil. Tem refrãos fortes que devem produzir efeito devastador na quadra. Mas não traz qualquer novidade melódica ou poética, reproduzindo um estilo que marcou a escola por muitos anos.   

Moisés Santiago, Paulo Shell, Leandro Costa e Tatiana Leite

Outro forte concorrente. Tem melodia mais trabalhada e encorpada do que anterior, mas também possui "pegada" e alegria - embora não apresente inovações. É um samba muito bom para a harmonia do canto. Gosto muito do refrão final, valente e guerreiro, que talvez seja o melhor da disputa. A letra é correta, objetiva e simples.


Adalto Magalha, Andrezinho, Ferreira, Gabriel Moura e Jorjão

Adalto tem história de vitórias na casa. Andou afastado, pelas bandas da Tradição, e agora retorna. O samba que apresenta é alegre, fluente e de melodia agradável. O momento mais interessante é a citação a mestre Louro. É o concorrente que aborda a homenagem de forma mais direta, falando o nome do antigo mestre de bateria da escola ("a bateria não esquece de você, Lourival"). Essa intimidade, como numa conversa com Louro, é emocionante e faz a diferença. Os refrãos são fortes, com a cara da escola.
   
M.André, Walkir, Grassano e Aranha

Depois de um carnaval como presidente da União da Ilha, Márcio André volta ao ofício original de compositor. Bom para o carnaval. Sempre sai coisa boa quando ele escreve - sem desmerecer os parceiros.

Além de ser corretamente construído, como todos os que estão citados aqui, este samba tem momentos diferenciados e de alto nível. Começando pela "cabeça" diferente e sensível "Mãe natureza... cede-me tuas peles e madeiras", passando pelo refrão central que se encerra com uma frase melódica inusitada "a fé sagrada é" e pela emotiva preparação para o refrão final que diz "... é fevereiro já ouço o tamborim e o pandeiro" e culminando com um refrão principal de pegada e força melódica, sem perder a alegria.

Helinho do Salgueiro, Xande de Pilares, Pedrinho da Flor, Mauro Jr. e Zé Domingo

O samba do pessoal do pagode é bom. Tem melodia, tem suíngue, tem força harmônica. Destaque para o verso inicial do refrão "Ecoa meu tambor" e para o refrão central "Rufa o tambor que eu sou de arerê...".

Não me bateu bem a palavra "hospitaleiro". Não é o termo mais preciso para definir mestre Louro, embora ele tivesse esta qualidade. Dá a impressão de ter sido encaixada mais pela métrica do que pelo significado. Há também algumas soluções melódicas previsíveis.


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Parte II: A safra mangueirense

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 22/08/2008 19:00:43

Outro dia mesmo estava eu aqui exaltando a importância da interatividade que a internet proporciona. Os leitores servem como uma espécie de termômetro daquilo que a gente escreve. É fundamental que tenhamos este retorno para sentir se estamos no caminho certo ou errado. Meu texto sobre a safra mangueirense é um exemplo disso. 

Não posso achar que sou o dono da verdade e ignorar as opiniões - desde que sejam emitidas com respeito. Alguns, movidos pela paixão, extrapolam, levam a coisa para o lado pessoal e até levantam suspeitas infundadas. Tudo bem, faz parte do processo e só acontece com quem dá a cara a tapa. Se eu só elogiasse todo mundo ia ficar feliz.

Mas, lendo os comentários e relendo meu próprio texto, reconheço que fui mais duro do que devia com os compositores mangueirenses. Talvez não tenha encontrado a palavra certa para expressar minha decepção com a média dos sambas. "Sofrível" é realmente um exagero. Por isso - sem vergonha de admitir um erro - peço desculpas aos compositores da verde-e-rosa. 

Esclareço que a decepção ocorre quando a gente espera algo muito bom. E a Mangueira, nos últimos anos, teve lindos sambas e ótimos concorrentes. Por isso eu esperava mais. A gente só cobra de onde sabe que pode vir coisa boa. 

Os que imaginaram haver algum tipo de perseguição à escola são os que não me acompanham há mais tempo. Já elogiei a verde-e-rosa inúmeras vezes. No ano passado, quando o mundo desabava sobre a Mangueira, eu fui um dos poucos que a defenderam. Respeito e admiro demais a história mangueirense e me orgulho de ter sido homenageado pela direção numa recente feijoada através de uma linda placa que guardo com muito orgulho.

Isso, entretanto, não me impede de encontrar problemas numa sinopse ou numa safra de sambas. Meu dever como cronista para com meus leitores é expressar minha opinião, seja qual for. E minha opinião não é a verdade absoluta. É apenas minha opinião. Há os que concordam e os que discordam. E isso é ótimo!

Alguns leitores sugeriram que eu analisasse outros concorrentes. Um deles foi meu grande amigo Serginho que tem o coração verde-e-rosa e mora no Palácio do Samba. Em respeito a ele e aos outros que o fizeram com respeito, vou comentá-los. Quero deixar claro que ouvi todos os que têm áudio na internet mais de uma vez, atentamente. Mantenho minha opinião sobre os que mais se destacam. Se vão para a final ou não é outra história. 

Não posso analisar todos os sambas de todas as escolas e nem visitar todas as quadras por isso vou continuar selecionando pelas gravações os que, no meu ponto de vista, mais agradam. A quadra faz diferença sim: no acerto do tom, no encaixe com a bateria, na presença da torcida, na repercussão entre os componentes. Mas não muda a concepção artística do samba. Pode ser decisiva quando a coisa é parelha, muito nivelada. Por isso dificilmente vou citar apenas um samba de uma escola de samba, mas sim aqueles que, imagino, vão para esta briga nos terreiros.

Celso Tropical, Catranca, Marcelo Santa Clara e Partidinho

A letra procura fugir do lugar comum da maioria de seus concorrentes. Usa vocabulário diferenciado e tem uma leitura própria do tema. Ponto para os autores.

A melodia é cadenciada e repetitiva, embora possua alguns bons momentos. Foge demais do padrão que a escola vem adotando nos últimos anos. O tom escolhido para a gravação talvez tenha sido alto demais, o que dificulta a interpretação até do excelente Davi do Pandeiro e uma melhor percepção do que o samba pode render.

Índio da Mangueira, Luisinho Oliveira, Daniel do Riachuelo, Beto Savanna

Tem uma boa construção melódica que busca soluções diferentes para a extensa letra sem soar repetitiva. Destaque para a primeira parte que é fluente e fácil de cantar. Não apresenta, entretanto, propostas musicais inovadoras, ousadas. É um samba conservador e extremamente pesado para as necessidades técnicas (evolução e harmonia) dos desfiles atuais.

A letra também está repleta de lugares comuns, a partir do verso inicial "Luz divina ilumina o nosso caminhar / Apoteose está em festa / É carnaval vem festejar". 

Paulinho Rocha, Vicente Felisberto e Fininho

É um samba tipo anos setenta. Nostálgico, encorpado. Em alguns momentos romântico. Tem bons refrãos.

Se perde em sua extensão, principalmente na segunda parte que faz a melodia ser às vezes confusa, e na letra ingênua.

Eraldo Caê, Paulo de Carvalho, Diego Cabral e Bitú G-Sé

Destes quatro é o que mais se aproxima dos meus preferidos. A segunda parte e o refrão final têm cara e pegada de Mangueira na avenida. 

Destaque para o trecho melódico "A imigração de gente nova que no sul vem aportar/ E que renova um ciclo, um lugar/ Vem trazendo esperança/ Verás que um filho teu não foge à luta/ Transformando em realidade/ Um sonho cheio de brasilidade". É bonito, gostoso de cantar e fluente. O refrão final também é alegre e mexe com o povo.

O problema está na parte inicial do samba. Burocrática em poesia e melodia, ela desequilibra a qualidade da obra. O refrão central também não tem qualquer atrativo. Simplesmente está ali para "cumprir tabela". Na comparação inevitável com os mais fortes concorrentes fica um pouco atrás.


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Decepção na safra mangueirense

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 19/08/2008 15:34:01

No ano passado, a verde-e-rosa teve uma das finais mais bonitas do carnaval. Os quatro sambas finalistas eram de alta qualidade e poderiam representar a escola na avenida. Para 2009 a história é bem diferente. A safra é sofrível e a diretoria dispõe de pouquíssimas opções. Acredito que o enredo repetitivo e a sinopse por demais confusa e extensa foram decisivos para isso. 

Outro fator que colabora para a diminuição da quantidade de boas obras é a junção de três eventuais parcerias. Lequinho e Gilson Bernini, que polarizaram as últimas disputas, se uniram e ainda acolheram o recém-chegado Gusttavo Clarão. Já escrevi sobre isso antes: pode ser bom para eles, mas é péssimo para a agremiação. Se o resultado desta parceria não for dos melhores a escola se vê em maus lençóis.

Dos sambas que possuem seus áudios disponíveis na internet, três aparecem com fôlego para disputar a vitória. São os que analiso abaixo.

Lequinho, Jr.Fionda, Gílson Bernini e Gusttavo Clarão

Aconteceu o que eu previ. Como num time de futebol, "muito craque junto às vezes atrapalha". Alguém sempre se intimida ou tem que ceder em função do colega. Dificilmente o talento de todos aflora. 

O samba fruto da junção de parcerias é um reflexo deste processo. Sou fã de cada um deles e sei do potencial criativo destes grandes nomes, mas sou obrigado a reconhecer: a obra está abaixo do que cada um produziria isoladamente. 

Não é um samba ruim, entendam. É apenas correto e fluente - "padrão básico". Falta a ele o "algo a mais" que todos esperamos destes compositores. A letra é composta por chavões e soluções óbvias e a  melodia, embora muito animada, segue o mesmo caminho da falta de ousadia e criatividade. Acaba se destacando na baixa média da escola e se transforma num dos grandes favoritos, pois deve contar com uma "mega-estrutura" de quadra.

A excelente qualidade da gravação passa um clima de animação muito grande e encobre eventuais problemas. Poderia ter um andamento mais lento para que pudéssemos sentir melhor a melodia.  
 
Marcus Moniz, Renan Brandão, Machado e Marcelo Nunes

A parceria do inesquecível refrão "Então não chora Pierrot" (2008) não produziu para este ano uma passagem tão bonita quanto aquela. Mesmo assim conseguiu fugir do lugar comum na poesia e gerar a melhor letra da safra mangueirense. 

Os autores mostraram grande sensibilidade artística para contar de maneira diferente uma história que já estamos cansados de ouvir. Ser poeta é isso: buscar o diferente, o novo, sempre com beleza. Versos como "Brasil, no plural se tornou singular", "um dia o sonho migrou", "Pátria que sorri ao chorar" e "Mangueira, tradução mais singela" são exemplos de uma letra que vai além da sinopse e busca sua própria maneira de contar a mesma história. 

A melodia mantém o estilo do ano passado. É cadenciada e densa, sem deixar de ser fluente. Possui passagens bonitas e é fácil de cantar em desfile. Não apela para a animação fácil. É uma espécie de resistência consciente.Talvez por isso encontre rejeição por parte de alguns segmentos importantes. 

A aposta dos compositores não é na alegria, mas sim na emoção do mangueirense, o que se comprova no verso "Sou a força da paixão que cresce na dor". A indignação com o que aconteceu no ano passado, aliás, vai além e gera um verso que soa como uma bronca na própria escola e que poderia ser evitado: "Mangueira... tem um nome a zelar". 

David Corrêa, Marcelo D'Aguiã, Rosemar da Mangueira e Bizuca

Mestre é mestre. Mesmo sem fazer sucesso recentemente David Corrêa mostra que ainda tem o dom de criar. Ele volta à escola em que produziu seu último "hit" (Atrás de verde e rosa só não vai quem já morreu) com um samba tipo "arrasta povo", que pode desbancar os favoritos.

A grande proeza da obra é respeitar a batida da bateria da escola. Na gravação já fica claro que a melodia se encaixa de forma suave nos cortes característicos dos surdos da verde e rosa. Isso promete fazer a quadra balançar especialmente no refrão principal. 

Ele (o refrão) se utiliza da batidíssima fórmula da resposta ("A Mangueira é... guerreira"), mas com uma divisão diferente e gostosa. O verso "respeite o meu tamborim" é um dos lugares do samba onde se percebe a diferente musicalidade de David. Assim como em "o homem branco também bate tambor", em "Sertanejo, pantaneiro, repentista, sanfoneiro, boiadeiro cantador" e em  "visão de um sonhador". Acordes e entonações que alegram quem está acostumado com sambas quadradões montados sobre soluções melódicas e harmônicas previsíveis.

O samba, entretanto, está longe de ser uma obra-prima. Tem quebras repentinas de melodia em alguns trechos e rimas quebradas "aqui e ali". A letra procura fugir do "detalhismo" descritivo, mas carece de maior requinte poético em algumas passagens.


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A festa dos sambas

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 10/08/2008 19:39:29

Começa um dos períodos mais polêmicos do ano para nós que fazemos a cobertura carnavalesca. A fase das eliminatórias de samba-enredo mistura paixão e interesse comercial numa dose que tira muita gente do sério.

O SRZD-Carnavalesco está desenvolvendo um trabalho especial neste período, se esforçando para estar presente nas quadras desde o momento de entrega dos sambas a fim de brindar você com o material mais novo possível. A exposição dos sambas concorrentes é uma demonstração da seriedade e do profissionalismo que este veículo tem demonstrado na cobertura da nossa maior festa.  

É com este propósito que vamos começar a já tradicional análise das "safras". É um segundo passo nesta cobertura que se completará com as reportagens feitas nas quadras das escolas. Nosso enfoque é subjetivo, como prevê uma coluna, e não pretende influenciar esta ou aquela diretoria. Faremos uma leitura crítica das obras em geral e apontaremos as que se destacam, procurando refletir sobre os motivos que levam este ou aquele samba a ganhar o favoritismo.

Sou um compositor licenciado e sei bem o que é participar deste tipo de concurso. Já ganhei três vezes, estive em mais quatro finais e vi também três de meus sambas ficarem pelo meio do caminho. Peço compreensão a meus colegas que sempre procurarei tratar com muito respeito porque sei que fazem seu trabalho com muito amor.

Vou tentar escrever sobre duas escolas por semana, entre Especial e Acesso A. Prometo não deixar nenhuma agremiação de fora, mas peço que entendam se esta ou aquela escola demorar um pouco mais. Não se pode ter uma idéia de um samba ouvindo apenas uma vez. É necessário um tempo de maturação para que a melodia seja perfeitamente "digerida" e compreendida. 

Adianto que tenho algumas convicções antes de entrar nos méritos da safra. Acredito, cada vez mais, que as letras precisam estar mais poéticas e menos detalhistas. Valorizo a transmissão de mensagem de forma sensível e emotiva. Não está escrito em lugar algum que todos os setores, carros e alas precisam estar na letra do samba. Muitas vezes esta busca louca por inserir todo o enredo acaba gerando monstrengos de difícil compreensão. Liberdade poética, pelo amor de Deus!

Quanto à melodia tenho sentido uma grande necessidade de ouvir coisas novas, que fujam dos padrões repetidos nos últimos anos. O samba-enredo precisa se libertar também da estrutura "Refrão - primeira parte - refrão - segunda parte". Porque não ousar, buscar uma formatação diferente? Arte é criar, é buscar o novo.

É importante que tenhamos em mente que o samba-enredo é uma música composta para ser cantada em coral, durante sessenta ou oitenta minutos. Versos mais espaçados, fluentes, sem muitas sílabas, facilitam o canto dos componentes e a propagação do som que emitem, ajudando decisivamente a harmonia. 

Não é um trabalho fácil, muito menos de consenso. Muita gente irá discordar, o que é bom na democracia. O importante é que se abra um debate em alto nível, em prol da qualidade do nosso quesito mais importante, aquele que faz as pessoas se aproximarem ou se afastarem da festa. Que o ano de 2009 nos brinde com sambas antológicos!


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Variedade e qualidade no Acesso A

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/08/2008 13:52:40

Só havia escrito até aqui sobre um enredo do Grupo A, o da Estácio. Esperei que todos fossem definidos e, sinopses, em mãos, faço agora um passeio pelo sábado de carnaval (que, aliás, está totalmente indefinido em termos de organização).

Só deixo de lado a Império da Tijuca, que optou pela reedição de um belíssimo samba-enredo e fez um caminho diferente. A escola da Formiga tem tudo para fazer um belo desfile.

Temos uma bela galeria de enredos para 2009. Afora, a coincidência de Renascer e Caprichosos que, embora falem do mesmo assunto, possuem abordagens divergentes, há uma variedade de propostas que causa expectativa. 

Política, ecologia, história, cultura e arte permeiam as criações das escolas que brigam de maneira acirrada para chegar à elite. Que a disputa entre Associação e LESGA não jogue fora um carnaval que promete ser um dos melhores dos últimos anos!

Inocentes - Brizola é carisma e ideal


O texto bem escrito em exaltação a Leonel Brizola realça os pontos mais interessantes do enredo, conta a história de forma linear e correta. É um tema rico em carisma e força política. É preciso, no desenvolvimento estético, tomar cuidado para não fazer mais uma viagem ao redor do mundo. O fundamental, e mais difícil, será retratar o carisma e os ideais de Brizola.

Tuiuti - Glamour e sonho em São Cristóvão

O Tuiuti vai contra história do prédio onde funcionaram o Cassino da Urca e a TV Tupi. Uma história de glamour e alegria que vai ter seqüência com o Instituto Europeu de Design. A Sinopse é recheada de ilusão, fantasia, festa. Um texto inspirador, na medida certa para a composição de bons sambas. Eduardo Gonçalves tem muita coisa bonita para mostrar. É um enredo com proposta visual bem forte e interessante.

Rocinha em desenhos

A Rocinha tem um dos melhores enredos do grupo. Ele não mostra só a bela obra de J. Carlos, mais do que isso: conta um pouco a história da cidade, o que é sempre muito rico. E, espero, vai contar esta história através de traços "caricaturais", o que dá leveza e um tom inovador ao desfile. Fábio Ricardo ganhou o Sambanet de melhor alegoria em 2008 por um carro com tais características, que pode ter sido uma prévia do que veremos em 2009. O texto é bem escrito, com o tom certo de poesia e informação.    

Santa Cruz é verde

A Santa Cruz optou por um tema politicamente correto: a preservação do meio ambiente. É uma escolha, em termos de carnaval, conservadora. O texto é claro, didático e poético, dentro do que a ala de compositores da escola precisa. Pode gerar imagens bonitas e fácil entendimento, mas a verdade é que o assunto já passou pela avenida algumas vezes e não empolgou. A verde e branca da zona oeste terá que tirar um coelho da cartola para reverter este histórico.         

União da Ilha - Viajar é preciso... e muito

O título do enredo da União da Ilha pode, perfeitamente, ter sido uma brincadeira do carnavalesco com a sua própria situação. Hoje em dia, este profissional, cada vez mais, precisa viajar. E foi o que Jack Vasconcelos teve que fazer, provavelmente, para encaixar um dos parceiros da escola no enredo.

A viagem da Ilha tem como ponto de partida a sensacional história de Júlio Verne que, por si só, daria um baita enredo (este pedaço certamente vai gerar belos momentos para o desfile). No meio do caminho surge, bem encaixado, Santos Dumont. A coisa sai dos trilhos quando o inventor do avião serve como ligação para o Rio de Janeiro e o Corcovado. Aí a viagem ganha seu tom mais delirante e pouco conectado com o resto do enredo. A imagem final, do bairro como ponto de partida para viagens, é correta e poderia ter sido mais explorada.

Renascer e Caprichosos - Transportando idéias

Ao ler a sinopse da Renascer pensei que a história dos transportes não é inédita na avenida e também não inspira muitos suspiros. Transporte é fundamental, mas não toca o coração, não mexe com a fantasia. É o tipo do tema, entretanto, que vai dar espaço para a criatividade de Paulo Barros. O texto correto e explicativo vai ajudar o trabalho dos poetas.

Mas depois me deparei com o enredo da Caprichosos e mudei meu pensar. O texto de Marcos Roza para a escola de Pilares tem um "quê" de gente - enfoca mais a relação do ser humano com os transportes. Fruto de pesquisa minuciosa, levanta aspectos interessantes e sai do lugar comum. É mais uma prova de que o mesmo tema pode gerar diversas interpretações e leituras. 

São Clemente - Revelando um personagem

Minha ligação com a escola me torna suspeito para elogiar o enredo "O beijo moleque da São Clemente". O tema é do carnavalesco Mauro Quintaes e a sinopse foi redigida pelo excelente Gustavo Melo, que foi nosso colega de coluna aqui no site. Não participei deste processo de criação. Embora tenha sido chamado pelo presidente Renato para compor uma comissão com este propósito, aquela idéia acabou não indo adiante. Independente disso, algumas considerações podem ser feitas.

Acho que o maior mérito do enredo é revelar um personagem importante, mas pouco conhecido do grande público. Outras escolas já fizeram isso com grande sucesso e eu considero uma colaboração para a cultura popular. A história de Benjamin de Oliveira, além de contar um pouco da história do nosso circo, conta também a do país. Tem muito fundamento e foi bem "linkada" com a realidade da escola. Resta saber como se transformará em fantasias, alegorias e samba. Esta criação precisará de muita sensibilidade e apuro artístico para retratar a bela sinopse. 


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A polêmica ortográfica

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 02/08/2008 09:26:08

O episódio que envolve o enredo da Mocidade gerou polêmica. A escola divulgou um texto e depois voltou atrás. Havia erros de ortografia, que revelavam falta de revisão.

Já se foi o dia em que as escolas se permitiam este tipo de falha. Não é nem o profissionalismo, mas sim a cobrança cada vez maior da opinião pública (devido à abertura que a internet proporcionou ao mundo do samba), que exige qualidade do trabalho das escolas. Ainda por cima numa agremiação com a quantidade de torcedores que a Mocidade tem.

Não é a primeira vez que tais erros aparecem nesta temporada. Talvez sejam frutos do excesso de trabalho de um mesmo profissional. Marcos Roza virou febre entre os dirigentes de escolas de samba. Já escreveu um "sem número de enredos" para 2009. Quando se produz em larga escala um trabalho que não é industrial, que não é padronizado, perde-se qualidade.

Há quem reclame (entre eles o colega Luiz Fernando) que esteja sendo criado um "escritório de enredos", assim como já acontece no mundo dos sambas. Ele próprio pode entrar em detalhes sobre isso.

Eu acho o trabalho do Marcos de muito boa qualidade. Esta qualidade foi que lhe abriu o mercado. Por outro lado, como em qualquer segmento, ele precisa manter um bom nível para manter tal aceitação. Enredo bom não é uma coisa simples de se criar e desenvolver. Há muitas nuances, conjugações e necessidades difíceis de serem encaixadas.

Por isso acho que o mercado começa a exigir outros profissionais para o setor. Não estão mais surgindo talentos "completos", que têm idéias, escrevem, desenham e executam. Há uma divisão muito grande de tarefas e o carnavalesco acaba sendo um grande gerente de criação.

No caso dos erros da Mocidade é importante que a escola procure manter um controle de qualidade interno. Seria interessante fazer como o Salgueiro, que criou uma diretoria cultural de alto nível que ajuda os carnavalescos neste trabalho.


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Do outro lado da ponte

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 30/07/2008 23:26:00

Numa postagem anterior comemorei o surgimento de vários enredos sem patrocínio para o próximo carnaval. Acredito que o fato de um enredo ser "autoral" é um indício. É mais fácil nascer um bom tema da imaginação do que através do interesse financeiro. Isso não significa, entretanto, que todo enredo autoral é bom nem que todo enredo patrocinado é ruim. Esta introdução tem um pouco a ver com os enredos que passo a analisar a partir de agora. Não que eles sejam exemplos do que é bom ou ruim para o carnaval. Mas, no meu modo de ver, são exemplos da importância do desenvolvimento do tema.

Curiosidades sem fôlego

O enredo da Porto da Pedra sobre a curiosidade tem algo cada vez mais difícil de se identificar no carnaval atual: uma mensagem. Ele expõe seu argumento com clareza já no título: "Não me proíbam criar. Pois preciso curiar! Sou o país do futuro e tenho muito a inventar!". O desenvolvimento, porém, tem pontos questionáveis e algumas quebras de narrativa desnecessárias.

O enredo de Max Lopes, com texto assinado por Marcos Roza, defende que a curiosidade humana impulsiona a evolução e também a destruição. Começa nos jardins do Éden, passa pela descoberta do fogo, pela caixa de pandora, pela época medieval e pela renascença. Até aí vai muito bem.

Neste ponto há um desvio de rota, quebrando a cronologia da história que está sendo contada. Há um setor sobre previsão do futuro e outro sobre o apocalipse e, só depois, o texto fala de inventores como Santos Dumont, Thomas Edison e Marcone.

Sobre este ponto é preciso perguntar: será que a magia dos inventores pára no século passado? Cadê as revoluções mais recentes como a cibernética e a genética, por exemplo?

O texto aponta ainda a curiosidade como motivo para conflitos religiosos e bélicos. Lá no fundo pode existir alguma relação entre os fatos, mas as razões que motivaram tais problemas foram na verdade outras, como a luta pelo poder.

O setor final carece de melhor argumentação para concluir a tese do enredo. Falar do Brasil como país do futuro não acrescenta. Parece uma solução padrão para encerrar um desfile. A impressão que dá é que faltou fôlego ao tema para gerar um carnaval de grandes proporções.

Vira-Bahia

Ninguém duvida que Milton Cunha é um dos melhores "enredistas" do carnaval atual. Ele usou de todo seu talento para associar a Bahia tradicional, aquela do Acarajé e da preguiça, à criação de biocombustíveis. Trabalho ingrato, muito ingrato, que ele tirou de letra.

Letra que Milton Cunha domina como poucos. Genial, ele costura seu texto aproximando termos técnicos complicados da linguagem popular, "carnavalizando" a ciência e projetando um desfile que une o gingado baiano à consciência ambiental. A Viradouro vai ter festa, alegria, tradição e também educação, informação.

Talvez este fosse o encerramento perfeito para o enredo do Porto da Pedra, que pretende exaltar o Brasil como país do futuro, mas usou para isso informações e imagens já desgastadas. Axé, Milton! Axé, Viradouro!


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Heróis anônimos do carnaval

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 23/07/2008 12:51:41

Foto: Marcelo O´Reilly/DivulgaçãoNo último sábado dei uma passada na festa que comemorava os dezoito anos do projeto "Escola de Mestre-sala, Porta-bandeira e Porta-Estandarte", coordenado pelo Manoel Dionísio. Infelizmente não pude ficar muito tempo, mas nos poucos minutos em que estive presente pude me emocionar com a apresentação dos alunos.
 
Não daqueles mais experientes, quase prontos para assumir um posto numa escola de samba. Quem tocou meu coração foram os que ainda vão demorar ou nunca chegarão lá. Meu sorriso apareceu com as crianças e os que têm alguma dificuldade extra devido a problemas físicos ou mentais. O amor e a alegria demonstrados por eles nos dão uma verdadeira lição de vida.

Fiquei imaginando o tamanho da importância de um projeto como este para a vida destas pessoas, para a sociedade e para o carnaval. E aí é que entra a questão mais importante. Não dá para entender como este projeto, após dezoito anos, ainda não conta com patrocínio, apoio governamental ou das escolas de samba. Além do trabalho social junto às pessoas carentes ele perpetua a cultura do samba criando futuros profissionais. O próprio mundo do samba deveria subsidiar o projeto, pois é lá que muitas agremiações vão buscar seus casais.

Só ali, vendo o sorriso, o bailar e o gingado daqueles crianças, pude entender o que leva uma pessoa a seguir adiante apesar de todas as dificuldades: o amor e a satisfação pessoal por fazer o bem. Como pouca gente faz algo na vida sem visar benefícios financeiros, cheguei à conclusão de que Manoel Dionísio é um herói.

O tão badalado "profissionalismo" do carnaval evidencia sua precariedade ao expor este tipo de ferida. Nossa festa só vai adiante devido ao amor de alguns heróis. Heróis como Mirinha, antigo ritmista da São Clemente, que deixava sua casa toda terça-feira para ensinar, de graça, sua arte aos novatos. Na última semana Mirinha foi atropelado na Presidente Vargas e morreu anônimo.  

Sua memória se eternizará no toque de caixas, repiques e surdos dos novos ritmistas que a escola está criando em seu projeto "Samba Total". Assim como o nome de Manoel Dionísio ficará para sempre na história dos "pares" de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Até que, um dia, as pessoas percebam que eles são fundamentais para o ?espetáculo? que gera milhões para alguns "espertos" que nem sabem que tais heróis existem.


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Observações sobre a LESGA

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 16/07/2008 15:28:23

A iniciativa de criar a LESGA  já era propagada há alguns dias e ganhou força durante o sorteio da ordem de desfile, na quadra do Império Serrano. Comentava-se, inclusive, que Nilo Figueiredo (presidente da Portela) poderia vir a ser o presidente da nova entidade. 

O que mudou de lá pra cá foi que algumas escolas, inicialmente contrárias, juntaram-se ao grupo. O porquê disso talvez seja a resposta para o virtual sucesso do movimento "separatista": alguma "força maior" deve ter apoiado a iniciativa. E se isso realmente aconteceu o caminho, num primeiro momento, é sem volta. Afinal, não existe grupo de acesso sem estas escolas.

O que me intriga são os objetivos do grupo. Num primeiro momento eles são comerciais. As escolas alegam que querem receber mais dinheiro. Mas isso poderia ser resolvido dentro da própria Associação. Dependia de uma administração mais ousada e profissional do desfile e as escolas poderiam tomar a frente desta organização sem sair da entidade.

O que move realmente as agremiações são os objetivos políticos. As escolas nunca se preocuparam em melhorar o espetáculo do sábado. Cada uma delas sempre pensou em sair deste grupo o mais rápido possível. A troca do poder pode facilitar o caminho de volta à elite para quem não estava "afinado" com a Associação.

Além disso há algum interesses comerciais de quem identificou ali  potencial para gerar dinheiro. O maior temor é que esta visão comercial norteie o desfile de maneira a transformá-lo em mais um produto turístico, afastando o carioca que ainda tinha no grupo de acesso a possibilidade de acompanhar o carnaval.

COMO SERÁ?

Ainda é muito cedo para dizer se a LESGA vai dar certo porque não foi apresentado um projeto concreto. É preciso esperar. Vale lembrar que nos anos noventa uma iniciativa parecida (LIESGA) durou apenas um ano e serviu apenas para alçar uma escola do grupo D ao Especial (Porto da Pedra).

Claro que muita coisa pode melhorar, assim como no grupo de elite. Mas antes de pensar em arrecadar mais as escolas deveriam pressionar os políticos em busca de barracões definitivos e estruturados e de um maior equilíbrio na distribuição do dinheiro público. É preciso também uma transmissão mais elaborada de televisão, que dê maior visibilidade e valorize o produto em nível nacional.

O presidente da Rocinha, Maurício Mattos, teria um papel interessante no processo se fizesse o trabalho comercial de sua escola ser estendido para o evento como um todo. Ele sabe como fazer isso. Mas abriria mão desta vantagem?

Imaginar que com o simples aumento no valor dos ingressos as escolas sairão da penúria é um erro fatal. Elas podem perder o público que conquistaram nos últimos anos e voltar a desfilar para arquibancadas vazias.

Muita coisa pode ser feita, mas não se pode esquecer que este é o carnaval do povo carioca.

LAMENTÁVEL

O pior de tudo no processo foi o covarde "não posicionamento" do prefeito César Maia. Ao empurrar a responsabilidade para a LIESA o prefeito, além de "tirar da reta", reafirma sua postura pouco preocupada com as escolas menores. Não é de se surpreender. Foi na gestão dele que o número de escolas no especial foi reduzido, que acabaram as participações do acesso nas campeãs e o ascenso foi reduzido a uma agremiação.


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E segue a festa dos enredos

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 13/07/2008 11:29:19

Estou começando a prever um carnaval interessante em 2009. A escassez de  enredos patrocinados abre espaço para temas autorais que, quando bem construídos, são sempre muito benéficos para a nossa festa. Já comentamos aqui sobre algumas escolas que largaram muito bem como Vila Isabel, Imperatriz e Grande Rio. Tem mais coisa boa surgindo, como vamos ver abaixo.

Vale lembrar que esta análise que estamos fazendo é em cima do argumento inicial do enredo. Este é apenas um sub-item do quesito. As sinopses se transformarão em samba, fantasias, alegorias, coreografias, teatralizações,etc. Aí sim teremos o enredo pronto. Mas é possível prever, sim, quando uma escola começa bem seu ano.
 
Tambor vai bater forte

O Salgueiro não está de brincadeira. O vice-campeonato de 2008 parece ter motivado o gênio Renato Lage que voltou a sentir a proximidade do título e caprichou no tema escolhido.

A sinopse do enredo "Tambor" é perfeita. Objetiva, clara, emocionante e dividida de acordo com os setores da escola. O Salgueiro terá um enredo com o toque afro que sempre lhe faz bem, mas com variações interessantes que culminam com uma merecida homenagem a Mestre Louro.

A gente vai lendo e vendo o desfile, imaginando as criações fantásticas dos carnavalescos com seu acabamento inigualável.Uma boa sinopse, como esta, não amarra os compositores a uma série de informações. Dá a diretriz e faz com que eles criem de verdade. Vem aí uma grande safra de sambas-enredo. E um belo carnaval em vermelho e branco. 

Sonho de Ícaro?

Uma rápida lida no texto divulgado pela Unidos da Tijuca para representar seu enredo ("Tijuca 2009: Uma odisséia sobre o espaço") desfaz a idéia de que o tema seja uma espécie de reedição do clássico "Ziriguidum 2001" da Mocidade Independente.Qualquer tema permite uma infinidade de variações e o enfoque da Tijuca está longe do "carnaval nas estrelas" apresentado por Fernando Pinto em 1985.

Ao invés de mulatas sambando em meio a discos voadores a escola do Borel vai mostrar o fascínio que o céu exerce sobre o ser humano e os conhecimentos dele advindos para o nosso dia a dia. Teremos imagens mitológicas, científicas, infantis e leituras cinematográficas.

A sinopse é bem redigida, o que facilita o trabalho dos poetas. Por outro lado não sou fã da idéia de criar uma poesia sobre o enredo para guiar os compositores. Entendo que é uma maneira de enquadrá-los o máximo possível na proposta dos carnavalescos, mas acaba sendo uma maneira de podar a criatividade e facilitar a vida dos que apenas "cortam e colam" frases e as jogam numa melodia qualquer. Neste caso os autores deixaram para o tal poema uma série de informações não contidas no texto tradicional. É o que mais interessa no apêndice do enredo.

Num primeiro momento o tema não me tocou. Carece de emoção e repete soluções já usadas pela escola recentemente como o setor infantil e o do cinema. Está longe de ser um enredo ruim, esclareço. Não parece, entretanto, algo que possa levar a escola ao céu do carnaval.

Chita dá samba?

Respondo agora ou no final? A pergunta fui eu quem me fiz, antes de ler o enredo da Estácio de Sá. Estou tentando me responder. Vamos por partes. Já ouvi dizer que qualquer coisa dá samba desde que bem encaminhada. Talvez sim.

Aliás, durante a leitura você tem certeza que sim, mas "peraí!" Será que o enredo é bom mesmo ou o texto é melhor do que ele? A forma escrita supera o conteúdo? Uma sinopse rimada, bem humorada e cheia de imagens é sempre gostosa de ser lida. Mas o enredo por trás dela tem peso?

História tem. E muita. Vai começar da Índia, passar pela Europa e aportar no Brasil através de diversas manifestações inclusive (não poderia faltar) o carnaval. Quanta coisa bonita eles vão ter para mostrar nas alas e carros!   

Tem até um setor político, ligando a Chita à luta contra a ditadura. Confesso minha completa ignorância quanto a essa relação, mas acredito no carnavalesco ? embora o texto não seja informativo a respeito.

Confesso também que comecei a leitura com um pé atrás. E também este texto. Ainda me pergunto se a Chita merece mesmo ser enredo. Não estou convencido, mas sei que vai dar samba e desfile. Porque melhor que o tema foi o desenvolvimento, mesmo que um pouco fantasioso, que ele ganhou. E como carnaval é uma grande fantasia dou meu braço a torcer ao belo texto assinado pelo Cid Carvalho.


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Tem tudo para dar certo

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/07/2008 11:26:48

Quando a Renascer anunciou sua dupla de carnavalescos eu escrevi, aqui, que tinha tudo para dar certo. O mesmo vale para a Vila Isabel. Paulo Barros e Alex de Souza são dois grandes artistas do nosso carnaval e a união dos estilos será, com certeza, benéfica para a escola.

No último carnaval fiz muitas críticas ao trabalho do Paulo na Viradouro. Elas se baseavam em dois aspectos. O fato de ele fazer um enredo a favor de suas idéias ao invés de colocar as idéias em favor de um enredo, e a pouca preocupação com o acabamento de suas alegorias.

Nunca questionei a capacidade criativa do Paulo Barros e sempre o exaltei como uma das mentes privilegiadas do nosso carnaval. Neste mesmo desfile de 2008 ele montou com um conjunto de fantasias brilhante, cheio de ousadia e criatividade.

Para o trabalho na Vila, Paulo encontra um enredo pronto (e excelente), fantasias já projetadas e um parceiro extremamente talentoso e cuidadoso com seus carros alegóricos. Ele terá, necessariamente, de usar sua imaginação para ajudar a contar uma história que tem início, meio e fim e uma riqueza plástica sem igual.

Será instigante acompanhar o casamento de estilos completamente diferentes. Será que as fantasias de bom gosto de Alex ganharão um toque de ousadia? E suas alegorias, cheias de esculturas e ornamentos, terão espaço para as coreografias com centenas de figurantes? Como estará vestido o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e que tipo de novidade trará a comissão de frente?

A Vila já era uma das favoritas pelo enredo, talento do carnavalesco, expectativa de um bom samba e organização. Agora ganha também a ousadia, o impacto, a mídia. Abram o olho, concorrentes!


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Da Cidade do Samba para o Carandiru

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/07/2008 21:02:18

Se realmente Paulo Barros não for contratado por alguma escola do Grupo Especial o desfile de sábado agradece. Afinal, somente ali estará o trabalho do carnavalesco mais badalado dos últimos anos. Junto com ele virá o interesse de quem tomou gosto pelo carnaval a partir das inovações trazidas por seu espírito inovador.

Paulo tem sido pauta principal para quase todos os grandes veículos de imprensa quando o assunto é escola de samba e já virou uma espécie de celebridade. Será interessante ver o foco do pré-carnaval sair da Cidade do Samba para o "Carandiru". Pode servir até para chamar a atenção das autoridades quanto às condições adversas que as agremiações de menor porte enfrentam.  

Particularmente tenho a impressão de que algum espaço será aberto para ele no grupo de elite. Ainda estamos muito longe do carnaval e há tempo suficiente para incluí-lo no time, nem que seja em forma de parceria como a que está sendo feita na Renascer de Jacarepaguá com Paulo Menezes.

Caso isso não aconteça a emergente escola do Largo do Tanque terá tirado a sorte grande. Passará ser a grande atração do desfile de sábado e de certa forma de todo o carnaval, gerando expectativa e atraindo uma série de foliões, até mesmo novos telespectadores.

Quem diria?


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Um carnaval diferente

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 03/07/2008 01:50:28

Este ano não será igual aquele que passou. Ou aqueles que passaram. Grande Rio e Beija-Flor não vão encerrar o desfile. Pelo contrário, desfilam no domingo com a escola de Caxias sendo a segunda a entrar na pista.

Esta colocação pode ter dificultado o sonho de título para a tricolor caxiense, justo num ano em que ela conta com um bom enredo e um enorme patrocínio. Historicamente as duas primeiras escolas do domingo sofrem muito com o rigor do júri.

Para a bicampeã Beija-Flor mudar não parece ser motivo de susto. Ela própria mudou seu estilo de enredo e propõe um novo molde de samba. Diante disto não há problema em ser a quinta a passar na Sapucaí na noite de domingo.

Houve uma inversão quase completa em relação à divisão de 2008. Apenas a Imperatriz se manteve na segunda-feira, aliás numa excelente posição (terceira). Todas as outras escolas mudaram o dia de desfile. E o curioso é que Portela, Mangueira e Viradouro mantiveram a sequência em que se apresentaram no último carnaval. Se estatística contar ponto as escolas mais tradicionais do Grupo Especial podem começar a comemorar, pois agora estão bem posicionadas.

É importante para o carnaval esta mexida nas posições de desfile. Estava ficando cansativo ver as mesmas escolas em posições que se repetiam.

O Grupo de Acesso vai ter uma noite bem equilibrada, com atrações no início, meio e fim. As escolas mais fortes acabaram bem distribuídas ao longo da noite. Como a Rocinha pôde escolher sua posição quem deu sorte de verdade foi a União da Ilha que, entre as mais fortes, foi a que pegou o melhor lugar -  bem no meio da noite.

Abrir a festa (casos de São Clemente e Estácio) é castigo e fechar (Santa Cruz e Caprichosos) extremamente cansativo.


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O rei de uma gente tão modesta

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 02/07/2008 11:59:43

Ano passado, eu estava fazendo o programa "Show de Bola" ao vivo direto da quadra da União da Ilha. Era uma noite de sábado e desde o início da semana eu havia pedido à escola a presença de Aroldo Melodia.

Quando começou o programa o filho, Ito, veio explicar que o "velho" enfrentava dificuldades para sair de casa devido aos problemas de saúde e que poderia participar via telefone. Ligamos para a casa dele e, ao entrar no ar, Aroldo perguntou até que horas iria o programa. Ainda tínhamos cerca de hora e meia até o encerramento e ele disse que estaria se encaminhando à quadra.

Sozinho e sobre uma cadeira de rodas, o mestre chamou um táxi que adentrou o recinto quando faltavam dez minutos para o fim do programa. Tempo suficiente para que tivéssemos um dos momentos mais emocionantes que vivi na minha cobertura carnavalesca. Ao lado do filho, Aroldo entoou o  clássico "É hoje" cercado por baianas, velha guarda, passistas,  departamento feminino e ouvintes da rádio que estavam presentes. Foi um presente que nós recebemos. O último de um dos maiores cantores que nosso carnaval já viu.

Meu carinho por Aroldo era tão grande que me fez, em 2003, inscrever um samba-enredo na Lins Imperial quando a verde e rosa o homenageou. Seria um sonho assinar o samba que homenageou Aroldo em forma de enredo. Mas bateu na trave. Fomo à final e acabamos derrotados. O importante foi que o enredo foi vitorioso e Aroldo deu à Lins o título daquele ano. Merecidíssimo.

O céu terá grandes desfiles em 2009 com os reforços de Aroldo e Jamelão.


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A grande paixão

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 01/07/2008 16:19:50

"A grande paixão que foi inspiração de um poeta". É a definição de Martinho da Vila para enredo (letra do samba "Pra tudo se acabar na quarta-feira"). Este quesito é o início de tudo num carnaval e quem começa bem tem tudo para realizar um grande desfile.

A maioria dos enredos tem passado longe deste sentimento apaixonado. Cada vez mais eles estão se distanciando da realidade popular. E não são apenas os patrocínios os culpados disso. Mesmo quando o enredo é autoral, tem faltado conexão com o grande público. Talvez este seja um dos responsáveis pelo distanciamento da população em relação às escolas de samba.

O mundo moderno apresenta a cada dia uma velocidade maior no processamento da informação e na transformação das relações de interatividade. É preciso entender este momento e se adaptar a ele. Quem ficar parado no tempo vai perder o bonde da história. É preciso renovar linguagens e conceitos de desfile. É por isso que me preocupo quando vejo temas recorrentes, desenvolvimentos repetitivos e informações confusas nos enredos.

Surpresa negativa

Me surpreendi negativamente com o texto que representa a Mangueira. Achei a redação extensa e truncada. Roberto Szanieck é um excelente artista plástico, muito talentoso, mas não demonstrou inspiração ao redigir um enredo que é baseado em um livro e que, por isso, merecia pelo menos uma revisão. Logo a velha Manga que, até pouco tempo, tinha as melhores redações do carnaval carioca.

O texto promete abordar a batidíssima história da formação étnica do Brasil  sob o ponto de vista de Darcy Ribeiro, comparando-nos a Roma. Não sei exatamente como o carnavalesco fará isso. Espero que encontre o tom correto para fugir da mesmice que é reproduzir a nossa miscigenação. Claro que esta primeira impressão pode ser revertida quando o enredo se transformar em samba, alegorias e fantasias. Mas o pontapé inicial não me agradou.

França ricaça

A França será retratada pela Grande Rio com luxo e grande impacto visual. É um carnaval repleto de aspectos estéticos e culturais interessantes, que começa com um texto limpo, direto e correto.Talvez por ser um tema patrocinado a escola tenha optado por um desenvolvimento reto, sem muita divagação. Ainda assim, aponta como uma forte candidata ao título. Principalmente devido ao aporte de oito milhões de reais.

Tocando o Coração

Lembram daquele papo de "grande paixão". Não está lá em cima à toa. Ele se encaixa perfeitamente no enredo lançado na tarde de domingo pela Imperatriz. Vai mexer com a história do bairro, ou seja, com a realidade de quem faz a escola e de quem a cerca. Vai contar um pouco da história da cidade, do carnaval, do partido alto, dos blocos. Para um sambista não existe nada mais apaixonante. 

O texto parece até certo ponto descompromissado, mas triunfa pela simplicidade. Dá vontade de ler até o final. E quando chega ao fim fica aquele gosto de quero mais, aquela vontade de ver como será o desfile, de escutar os sambas que dali sairão, etc. E podem anotar: vem sambão por aí. E, consequentemente, um belo carnaval.


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